Secretário

Há determinadas épocas do ano em que a Morte não consegue trabalhar sozinha. É que realmente, algumas vezes, há uma incidência maior de famosos então, ela faz questão de buscá-los, logo os outros moribundos ficam por conta de seus secretários. Há também os secretário que são mandados pra algum tipo de morte que costuma ocorrer com mais frequência, estes também tão temporários porque tem épocas que mais pessoas morrem assassinadas, assim como há épocas que as pessoas acham mais legal se jogar na frente do trem. Eu sou um destes secretários. Eu busco alguns moribundos e confesso, é sempre um porre. Não pela morte em si, mas os mortais são extremamente chatos, ainda mais quando algo inesperado acontece como um atropelamento ou até um ataque cardíaco.

O negócio é que estes que são pegos de “surpresa” muitas vezes não aceitam. Eles choram, desacreditam, tentam abraçar a família, o cachorro… É sempre um show dramático que só me atrapalha de colocar as correntes.

Esses dias, fui buscar um cara que achou que não teria nada demais se jogar do teto da casa no chão, pra provar pros amigos que era algo “fácil”. A ideia era ele cair em pé, mas quando ele tomou o último impulso pra pular, o pé esquerdo escorregou num pouco de lodo e ele perdeu o equilíbrio totalmente, fazendo o pulo espetacular parecer um boneco sendo jogado de cabeça no chão. Pescoço quebrado e logo ele estava de pé dando risada pros amigos e sem entender porque eles estavam tão chocados. Depois de rir muito do tombo dele (foi muito engraçado, vocês tinham que ver…) eu fui até ele para tentar levá-lo. A primeira coisa que eu ouço é: “Quem é você?” ou “Você é a morte?” e ainda teve uma vez que ouvi “Você é Deus?” e um único caso de um cara bêbado que me abraçou me chamando de “mamãe”. Ainda bem que para os que morrem bêbados, sua “visão” dura não mais que 30 segundos até se darem conta de sua condição.

Este, me perguntou quem eu era, e então fui para as mesmas palavras de sempre: “Eu não sou a Morte. Sou um secretário e vim te buscar. Sim, você morreu, sua família vai ficar bem, agora anda logo…” Claro que ele riu disso, e depois gritou de horror (parecendo uma menina na verdade) quando foi tocar o ombro de um amigo e a sua mão atravessou. Eu sentei no chão e fiquei vendo as nuvens passarem sobre o sol enquanto ele tinha seu ataque histérico de aceitação. Quando ele não aguentava mais gritar ou tinha se cansado, não sei, eu coloquei a corrente em seu braço e o levei para seu descanso. O problema foi aguentar a mesma ladainha de sempre no caminho “Deve estar errado isso aê… Eu vou acordar num hospital não é? Eu to sonhando não é? Eu to em coma não é? É por isso que eu não consigo acordar não é?” É claro que eu diria que se ele dissesse “não é” de novo eu lhe dava um soco na cara mas na condição que ele estava, não iria sentir. A corrente era o único e último meio que poderia lhe tocar então me aproveitei disso para arrastá-lo quando ele parava para pensar e gritar.

Pior que os que não aceitam, é aqueles que aceitam e ainda querem fazer gracinha. Alguns demoram um pouco pra realmente se desligar do mundo, então eles ainda podem mover copos ou causar calafrios. Acho que era John o seu nome, ele morreu enquanto fazia a barba, não teve muita graça e foi um saco ter que ficar esperando no banheiro. Ele estava lá sossegado e de repente seu coração resolveu dançar a macarena.  Logo ele estava no chão e a sua mulher desesperada batendo na porta querendo saber o que havia caído no banheiro para fazer aquele barulho. Ele se sentou no chão e quando me viu não fez nenhuma pergunta, apenas disse: “Nossa, eu nem vi direito…” Eu até sorri se é que isto me é possível.  Cheguei a pensar que seria fácil mas não… Assim que atravessou a porta, viu sua mulher ao telefone chamando o filho para arrombar a porta do banheiro. Eu tentei colocar a corrente nele mas ele estava mais interessado em como sua mão ainda conseguia tocar no copo que sua mulher havia deixado em cima da mesa, logo o copo voou na parede e a mulher, depois de um grito bem estridente, desmaiou. Ainda bem que eu não tinha que levar os dois. Logo o filho do casal chegou e a nora conseguiu acordar a sogra. Entre soluços ela explicava o que tinha visto e o filho dava risadinhas abafadas. Mais uma vez tentei colocar a corrente e o velho maldito correu e segurou os seios de sua nora. Ela disse que sentiu um arrepio e muito frio (em pleno verão de 34°). O filho disse que tudo aquilo era besteira e enfim arrombou a porta, e quando viu o corpo estirado no chão, foi a vez dele sentir um arrepio e um certo frio na altura do estômago, fruto de um soco mal sucedido do velho que agora já estava atravessando as coisas. “Você nem era meu filho de verdade seu moleque tosco!” dizia o velho enquanto eu o acorrentava e o levava pra fora de casa.

Eu só queria, pra variar, pegar algum caso em que a pessoa aceitasse de boa, mas outro secretário já pegou esse departamento e eu tenho que continuar com as não aceitações.

Enquanto eu espero o chamado para a próxima morte, vou continuar com meu cigarro e minha bebida antes que esfrie… Afinal, não é todo dia que você consegue 10 minutos de folga…

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