Sem explicação

Ele não conseguia responder. A respiração forte, o gosto de sangue na boca e a visão turva também atrapalhava, os ouvidos estavam abafados e seus rosto todo formigava. Caiu de cara num tapete fino, do qual o tecido ele jamais saberia identificar qual era. Ao tentar se levantar sentiu uma dor aguda no estômago e viu seu corpo ser jogado para o outro lado. Outro chute e agora ele sentia como se a cada toque da bota, sua carne se abrisse um pouco mais. Tentou colocar os braços no rosto, mas sentiu as mãos fortes pegarem seus pulsos e afastá-las.

Era uma luta covarde, ele mais conseguia se colocar de quatro, quanto mais de pé, e mal podia reagir que era atingido por algum golpe. Ele tentou gritar, pedir que parasse, mas sua garganta estava bloqueada e a falta de ar estava começando a ficar mais forte. Também não conseguia ver quem estava lhe batendo. Desde que entrou ali, só havia levado golpes, sem qualquer som por parte do agressor.

Houve um momento que o silêncio ficou insuportável, mas foi nesta hora também que ele pode enfim cuspir. Sangue e saliva misturadas mancharam o tapete e ele pode enfim se apoiar sobre os braços. Balançou a cabeça e piscou os olhos repetidamente para tenta enxergar. Olhou em volta e não viu ninguém. Não sabia dizer se estava sozinho, mas aquela paz o deixava aliviado e ao mesmo tempo assustado.

Quanto tempo havia passado? Há quanto tempo ele estava apanhando sem parar? Sentou-se desajeitado no chão e encostou a cabeça na parede. Aos poucos sua respiração estava voltando ao normal, e conforme o sangue esfriava as dores iam aumentando.  Ergueu a cabeça pra cima e ficou olhando o teto, respirou fundo e fechou os olhos.

Seu alívio foi interrompido por uma dor forte em sua cabeça, como se estivessem puxando seus cabelos e se viu abraçado ao chão novamente. Pancadas nas costas, ora com as mãos e ora com algum objeto duro o suficiente para deixar marcas. Depois, sentiu dores nas pernas e nos joelho, um taco com certeza, agora ele era um brinquedo de bater.

Não conseguia mais reagir. Primeiro pensou que poderia ser uma estratégia para apanhar menos, mas no fim percebeu que seu corpo não conseguia reagir mesmo, não conseguia nem mover um dedo. Depois de sentir uma última pancada forte próximo a coluna, ouviu um suspiro e o barulho de algo caindo no chão. Sentiu seu corpo sendo arrastado até sair num lugar onde havia grama.

As pequenas folhas, ao passar pelos ferimentos dos braços, faziam com que eles ardessem mais. Foi erguido e se viu olhando para o céu e para um rosto familiar. O lugar era meio úmido e apertado, havia muita terra em volta… Uma cova!

Seus olhos se arregalaram mas ele não conseguia falar, com muito esforço ergueu o dedo mindinho mas logo sentiu as porções de terra caírem sobre seu corpo. O rosto familiar tinha um sorriso bobo, e nos olhos a satisfação.

rosa_brancaLogo sentiu o peso da terra contra o seu corpo que aumentava conforme seu algoz subia e pulava para acomodar mais terra. Deixou para cobrir o rosto por último e quando o fez ele enfim lembrou de onde a conhecia, e antes que pudesse falar, sentiu a terra sobre seus olhos sem poder ao menos erguer as mãos para tirar. Enfim enterrado, sobrou apenas a noite fria, uma rosa branca sobre o “túmulo” e uma moça de rosto angelical, porém manchado de sangue e lama, assim como as suas roupas. Ela deu mais um suspiro e enfim foi embora com o mesmo sorriso bobo no rosto.

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