Sua cama

_wsb_512x269_OfficeNão estava bem. Mais um dia sabia que não devia ter se levantado, nada poderia acontecer se ele continuasse deitado em sua cama. Era confortável, já estava com a forma do seu corpo, ele realmente devia ter ficado lá pelo resto do dia. Ninguém lhe aborreceria, ninguém o chamaria, ninguém iria sentir a sua falta. Sem explicações, sem cobranças, sem gente chata. A cama seria a sua companheira fiel, calada e sem pensamentos inúteis. Ele devia ter ficado lá.

Levantou-se, e se arrumou, estava atrasado. Olhou para a cama antes de sair, ainda deu um passo a frente para o quarto, mas olhou o relógio novamente e saiu. Correu mas o ônibus já tinha saído do ponto. Esperar não era seu passatempo preferido, então seguiu andando até o próximo ponto, parando uns cinco minutos para observar se o outro ônibus estava vindo. Quando chegou ao terceiro ponto, o ônibus apareceu e ele pôde enfim, seguir viagem.

Ônibus cheio, pessoas com os mais variados perfumes, que se misturavam formando um aroma podre. Até um charuto teria cheiro de rosas próximo daquele ar horrível. Seu nariz coçava, mas era impossível atender aos seus anseios, pois mal havia espaço para o movimento de respirar. Foi assim por pelo menos sete pontos, onde desceu. Ainda faltavam dois para o seu destino, mas era melhor andar a pé que naquele antro. Lembrou-se da cama, e viu o ônibus que ia no sentido contrário vazio. Pensou em voltar, ainda dava tempo, mas agora seu atraso era de mais que o dobro.

Finalmente chegou. Agora o cheiro era uma mistura de perfumes femininos com aquele ar de hospital que lugares muito vazios tem. Não lhe incomodava tanto, perfeitamente mais agradável que o cheiro do ônibus. Pegou o elevador e foi para a sua sala. Ligou sua máquina e nem se quer olhou em volta. Começou a digitar os documentos, e depois de uma hora e meia percebeu o silêncio mas, não olhou. Ficou um tempo parado, voltou a digitar, mas algo lhe incomodava. Não era apenas o silêncio dos teclados a sua volta, mas o silêncio do andar inteiro. Finalmente ergueu a cabeça. Os olhos ardiam pelo tempo que ficaram fixados na tela. Olhou em volta, realmente não havia ninguém.

Se levantou, andou pela sala, foi para a sala do chefe, foi em outras salas do andar, foi em todas as salas daquele andar. Ninguém. Não era dia de trabalho? O que havia acontecido? Sentou-se novamente. Voltou ao seu trabalho. Apesar da estranheza, não lhe incomodava tanto o silêncio, era melhor para se concentrar, nem estava errando, e as revisões ficavam mais rápidas.

Levou um susto com o telefone. Como não havia ninguém ele atendeu.

“Pelo amor de Deus, onde você está? Estão todos aqui!” A cabeça começava a doer pelo tempo fixo no computador sem parar. Anotou o endereço que a pessoa desesperada lhe falava ao telefone e desligou. Pegou suas coisas e seguiu novamente para o elevador. No saguão, havia movimento, porém todos eram pessoas que trabalhavam em outros andares. Pegou um táxi, luxo que a pessoa do telefone garantiu que pagaria, e seguiu. No carro, pensou novamente em sua casa. Ele teria voltado se tivesse dinheiro para pagar o táxi. No destino, uma pessoa veio de encontro com o dinheiro na mão. Todos estavam sérios, mal respiravam para não fazerem nenhum som. Ele sentou-se ao lado da pessoa que lhe falou em rápidas palavras o que estava acontecendo e ficou observando.

O chefe, em seu terno pomposo, que lhe dava uma leve aparência de um botijão de gás encapado de preto, falava como num discurso, mas a situação realmente era séria.

“Ontem, como todos vocês sabem, o Vitor faleceu. Ao contrário do que todos achavam, não foi suicídio e sim assassinato. A perícia descobriu após analisar as imagens da câmera. Sim meus amigos, há uma câmera naquela sala que nem eu mesmo sabia. Entendo o nervosismo de vocês, eu mesmo acompanhei as imagem, e confesso que me constrangi comigo mesmo. Mas não estamos aqui para constranger ninguém e sim, para por um fim a esse mistério.”

Seu bigode fazia uma dança engraçada enquanto ele falava, e quando citou o constrangimento, estava claro que ele era tão pecador quanto todos os presentes que ficaram boquiabertos quando ficaram sabendo da existência da câmera.

“Pois bem meus amigos, a polícia está ali no fundo, posicionada para qualquer possível fuga, e aqui para vocês vamos mostrar as imagens do momento da morte do Vitor.”

No telão, foi mostrado então a sala e Vitor sozinho trabalhando. Em um certo momento, ele se levantou e começou a dançar. É incrível como algumas pessoas libertam suas essências quando acham que estão sozinhas. Tudo ia bem e até de certo modo cômico, até aparecer a figura na sala, vestida um casaco preto, uns dois ou três números maior com um capuz, era ágil e não deu chance alguma ao rapaz. Colocou a corda em seu pescoço, amarrou rapidamente a ponta num dos apoios da janela e empurrou Vitor para fora. É possível ver a corda balançando com os últimos espasmos, enquanto a figura escreve algo em um papel e deixa sobre a mesa. A tal carta de despedida que todos pensavam que era dele. Ao sair, finalmente a figura revela a sua face, tirando o capuz.

Ele notou que todos olhavam para sua direção, desde que a figura apareceu nas imagens, e mesmo com a queda do capuz continuavam olhando para mim. Antes eram olhares julgadores, como se dissessem: “Sabia que tinha sido ele…” Depois, todos os olhares se transformaram e olhares de pânico. A polícia se aproximou e ele ainda não entendia os olhares, até que olhou para o lado. A pessoa que tinha chamado, pagado o táxi e sentado ao seu lado, agora tinha uma faca apontada em seu pescoço, arrastando seu pesado corpo para o lado e gritando qualquer coisa pedindo que todos se afastassem.

Ele só pensava em sua cama e em como ele não devia ter saído dela hoje de manhã. A polícia tentava manter a calma, até que ele sentiu seu corpo ser jogado para frente. Um dos policiais o ajudou a levantar enquanto outros tiravam a faca da mão da pessoa.

A pessoa era a secretária, braço direito do chefe do bigode dançante. O que a fez soltar seu corpo pesado que estava usando como escudo e refém, foi a ação de outra moça, uma que sentava ao seu lado e que ele mal sabia o nome. Ela abraçou o pescoço da secretária e só soltou quando a faca estava na mão dos policiais e o rosto da assassina ficando roxo. Ele sentiu um leve formigamento e notou as gotas de sangue. No alvoroço do movimento, foi feito um corte em seu pescoço, que agora estava sangrando sem parar. Ele foi levado ao hospital.

Na cama, tomando soro e com alguns pontos, só lembrava-se da sua cama, aquela que estava em sua casa, e de como não devia ter saído dela hoje.

juhliana_lopes 30-05-2013

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