Escolhida

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Não era alta e nem se achava atraente. Vivia no seu mundo, buscando fazer as suas coisas, e fazendo o máximo para não esbarrar em ninguém. Não gostava de contato físico, pelo menos não com pessoas estranhas. Evitava transportes públicos justamente por essa indiferença com os estranhos. Um tanto normal, ia e voltava da escola, sempre que possível sozinha, ou quando conseguia sair sem ser vista por Susan.

Na escola, era sempre muito responsável, e bem chata na maioria das vezes. Detestava fazer trabalhos em grupos, e os grupos detestavam fazer trabalho com ela. Para os outros, os trabalhos eram um momento de aproveitar, conversar, debater ideias, ou simplesmente fazer depois… Para ela, devia ser feito logo, sem demora, cada um com a sua parte, com a sua responsabilidade.

Costumava andar com as roupas mais simples e largas, justamente para não chamar atenção. Não que ela não quisesse ser amada, queria, mas  já havia se apaixonado algumas vezes, e todas as vezes descobriu que pelas pessoas erradas. Resolveu seguir só, sem chamar atenção e com seus amores platônicos, apenas sonhos dela. Fraquezas que ela jamais contaria a ninguém.

Sua vida não era interessante, não costumava sair por opção, e só tinha Susan como amiga. Susan era totalmente o oposto. Se arrumava bem, cada dia na escola era um desfile de moda, falava com todo mundo, falava alto, um defeito quase imperdoável. Ela era muito escandalosa, por isso talvez que não gostasse muito de andar com Susan na rua. Na escola era sua única companhia, e uma contava tudo pra outra. A única que ela podia confiar.

Um dia, no intervalo, perdida no canto do jardim com seu livro na mão, alguém olhou pra ela. Apesar de não saber quem, conseguiu sentir o olhar, procurou mas não viu ninguém. Voltou a sua leitura, e novamente sentiu aquela presença. Levantou-se, deu uma volta, pensou que alguém estivesse lhe pregando uma peça, ou que talvez Susan queria lhe surpreender. Não havia ninguém. O intervalo havia acabado, e não havia mais ninguém do lado de fora. Voltou para a sala então, imaginando a primeira bronca que levaria pelo atraso, mas não conseguiu nem entrar no pátio.

Dois homens com sobretudos pretos bloqueavam seu caminho.

– Juliana.

– Sim.

– Você vai vir conosco.

– Não vou não. Eu nem conheço vocês…

Não houve tempo de outra resposta. Agarraram seu braço e a arrastaram para fora, até chegar num carro preto. Trancada no carro, seguiram viagem.

– Quem são vocês? O que é isso?

– Você foi escolhida, agora fique quieta e vai ficar tudo bem.

– Escolhida pra que? Dá pra me explicar o que está acontecendo?

– Você acha que o Hygor passou por aqui? – disse o homem que estava no banco do passageiro.

– Acredito que não, senão ela nem estaria mais aqui… – disse o motorista.

– Mas será que ele reconheceria? Ela ainda não recebeu formação…

– Pode ser também,mas o importante que agora ela está sob nossa proteção e será bem treinada, agora só precisa…

– Ei! Eu ainda to aqui! Quem é Hygor? Que negócio é esse de formação, proteção, treino… O que vocês vão fazer comigo? É um sequestro?  – Disse Juliana irritada.

– Já falamos, fique quieta e tudo se esclarece…

O caminho então chegou ao fim. O lugar parecia mais uma masmorra, e todos usavam sobretudos pretos. Ninguém pareceu notar a presença da garota. Ninguém parecia notar a presença de qualquer outra pessoa ali.

A levaram até uma sala e então um terceiro homem se aproximou:

– Uma garota?

– Pois é, Phillip nos pregou uma desta vez…

– Mas será que vai dar certo?

– Pelo menos ela vai ter mil coisas a seu favor, e será mais fácil na hora de matar…

– Matar, como assim matar? – disse Juliana mais alto do que normalmente ela falaria.

– Já falei pra ficar quieta…

– Bem, não importa. Será mais uma pro nosso bando. Deve ter uns três na sala das asas, ela já tem?

– Acredito que não…

– Então, levem ela até lá, e vamos ver se daqui a uma semana aparece pelo menos as pontas.

Apavorada. É assim que ela se sentia e não entendia o porquê. Tinha medo também de descobrir. Ao chegar na sala das “asas”, mais terror.

– Me soltem! Tá machucando! Me soltem!

– Quanto tempo senhor?

– Marca pra essa daí uma semana, até lá algumas penas já apareceram. E por favor, guarde meu sobretudo, não vou mais sair lá fora, prefiro ficar a vontade…

– Sim senhor.

Sem o sobretudo ela pode ver, que tudo era pior do que ela imaginava. O homem que a levou para sala, saiu sem o sobretudo, revelando um par de asas negras em suas costas. De repente, ela não sentiu mais dor, e sim, libertação.

/juhliana_lopes 30-04-2013

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