A mesma coisa

10186993_983579_400

 

Era sempre a mesma coisa, a mesma promessa, a mesma meta e a mesma decepção.

Nem ele conseguia entender como conseguia fazer isso, e talvez por um momento aquilo tenha se tornado um vício. De qualquer forma era bom, e esse era um dos motivos lógicos que explicariam o porquê de tudo acabar da mesma forma. Apesar de bom, já estava começando a trazer hematomas e conforme eles fossem aparecendo, não era muito interessante mantê-los ou dar mais opções de lugares para que eles pudessem aparecer.

Vulnerável. Era assim que ele se sentia e por mais que tentasse não conseguia entender como, até hoje ele conseguia chegar em casa todas as noites. Não conseguia entender também como estes hematomas não apareceram antes e como ainda não havia chegado em casa com alguns ossos quebrados.

Levantou e sentou novamente na cama. Sua visão turva não lhe deixava distinguir os objetos. Quando fechou os olhos e abriu novamente viu que o que tinha na mão não era uma toalha e sim uma camisa branca. Não teve muita importância, serviu pra passar em seu rosto do mesmo jeito. Conseguiu se erguer novamente e foi até o banheiro aos tombos. Lavou o rosto com a água fria da torneira e fez todo seu ritual matinal.

Vestiu uma camisa social qualquer e pegou a maleta no sofá. A maleta. Estranhamente ela sempre ficava ali, e era um alívio pois era a única forma dele ter certeza que estava realmente em sua casa.

Ao chegar no trabalho, todos olhavam da mesma forma: mais um. Sim. Apenas mais um na empresa. Um qualquer, um Zé ninguém.  Ele não ligava muito pra status e muito menos para popularidade, gostava de ser ‘mais um’. Era mais cômodo, e mais rápido de sair de qualquer confusão.

Ela de novo. Confusão. Sua cabeça estava completamente confusa, tentando mais entender o que tinha sido da noite anterior. Tentou colocar as ideias em ordem, refazer mentalmente todo o caminho de volta da noite passada. Saiu, pegou a rua a direita e andou até o final, onde acabava numa grande avenida. Onde tinha uma esquina e onde tinha uma bar nessa esquina. Sim, aquele bar. Entrou lá para falar com alguém que ele conhecia, ou pensou que conhecia. Não conhecia. Uma pequena confusão que lhe rendeu um novo amigo. Agora conhecia, mas conheceu por pouco tempo. Não conseguia lembrar nome, idade e nem o rosto. Apenas que usava uma camisa amarela. Sua cabeça voltou a doer. Era hora de almoçar e tomar mais um remédio pra dor de cabeça.

Todos reunidos para um rápido café diante de uma pequena televisão onde passava as notícias do dia. E mais uma vez um brutal assassinato assombra a nossa sociedade! Será que ninguém mais pode sair de casa com uma leve certeza de voltar para casa? Semana passada foi um senhor de 50 anos e ontem a noite um rapaz de 17 anos. Os amigos dizem que ele costumava comer numa lanchonete próximo a faculdade antes de ir para as aulas. Ontem, seus amigos perceberam a sua ausência e quando foram atrás era tarde demais. O encontraram enforcado numa árvore nu, e segundo seus amigos a ‘corda’ usada foi a sua camisa rasgada! Até quando vamos ficar nessa impunidade, não podemos mais aceitar isso, onde estão os policiais…

Camisa amarela ele pensou… Enforcado numa árvore… Ah sim. Agora ele lembrava o que tinha feito a noite passada. E mais uma vez colou um papel no seu monitor escrito: Não beber naquele bar novamente… 

/juhliana_lopes

Anúncios

Uma resposta em “A mesma coisa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s