Partes

menina de costas

– É doutora, não adianta não, deixa esse ai de lado mesmo.

– Carlos, acredito que nosso amigo queira falar alguma coisa hoje…

– Seu amigo doutora. Eu não costumo ter amizade com gente desse tipo não. Eu vou lá fora resolver uns assuntos, pode ser que ele abra a boca pra falar com você sozinha.

– Bem, estamos a sós agora. Gostaria de falar alguma coisa?

– E se eu me sentar aqui do seu lado. Não quer falar nada?

– Qual o seu nome? O pessoal aqui só te chama por apelidos. Me fala o seu nome…

– Ei, olha pra mim. Pode confiar em mim, tudo bem com você?

– Bem meu tempo está acabando, eu vou embora, amanhã eu volto pra ver se você quer falar alguma coisa, ta bom?

– Árvore.

– O que disse?

– O corpo está enterrado entre as raízes da árvore.

– Oh… E…

– Tem alguns cortes, um bem profundo no pescoço e outros distribuídos pelo corpo. Peito, barriga, perna esquerda e braço direito. Há alguns cortes nas mãos também pois foi quando ela foi se defender. Deve haver do lado direito da cabeça dela uma parte mais baixa ou alguma fratura. Foi o lado que eu joguei contra a parede para que ela ficasse tonta. Talvez num primeiro momento não dê pra perceber por causa da terra mas deve haver algumas manchas rochas no pescoço que foi quando eu apertei e amarrei um lençol para sufocá-la. Deve haver manchas nos tornozelos também por causa das correntes que eu tinha colocado.

– Eu vou pedir para verificarem e…

– Mande fazer um raio-x também, sobretudo nas costas. Antes de enterrá-la, enquanto eu decidia o que ia fazer com o corpo, eu finquei algumas agulhas nas costas até elas sumirem na pele. Se os olhos estiverem roxos foi por causa da maquiagem que eu fiz antes de esconder o corpo também. Tomei o cuidado de deixar algumas roupas, mas a pelo tempo, devem estar começando a ficarem podres.

– É… Tudo bem, eu vou falar…

– Ah, não vá ainda. Mandem vasculhar a casa. Há alguns pertences dela, nada demais, roupas, dinheiro e documentos. Se olharem com atenção, vão perceber que embaixo da escada tem um quartinho oculto. Lá eu guardo venenos e minha coleção de partes. Dedos, unhas, orelhas, tem alguns olhos e uma língua. São de pessoas que eu ataquei na rua em outra cidade. Eu estava começando a minha coleção. Era pra eu tirar dela o dedo mindinho, mas ela não deixou então acabei matando. As partes estão em vidros devidamente lacrados com formol e na gaveta da direita, que tem uma listra branca, há pedaços de mechas de cabelo. Na gaveta debaixo eu tenho algumas fotos aleatórias de pessoas que eu ia tirar novas partes para a minha coleção. A maioria são de outras cidades. Eu não costumava pegar gente daqui. A minha próxima peça seria a orelha direita de uma menina chamada Alice Allen. Deve ter uns oito anos de idade, a foto dela deve estar junto com as outras.

– Alice Allen…

– Sim. Conhece?

– É… Ela é… Minha filha.

– Sua filha? Nossa que mundo pequeno. Reparando bem, agora eu vejo de onde ela puxou a perfeição da orelha. As curvas, trazem uma beleza toda natural ao rosto de vocês. Deve ser de família mesmo. Pensei em tirar os olhos dela. Aquele verde que muda de cor ao sol é estupendo, mas olhando bem, os seus olhos cor de mel são bem mais bonitos.

– Os olhos dela? Como você sabe tanto sobre ela? Há quanto tempo você estava seguindo ela?

– Há um ano e meio. Eu trabalhava próximo da escola dela. Numa lanchonete que fica na frente. Agora olhando pro seu rosto, acho que já te vi lá.

– A lanchonete… Então aquela história do Alessandro que alguém tinha cortado o cabelo dele não era brincadeira de criança…

– Alessandro… Ah sim. Um cabelo num perfeito tom de castanho. Eu tinha que tê-lo pra mim, pelo menos uma parte. E cabelo de criança sempre é mais perfeito.

– Eu… Eu…

– O que foi doutora? Você não estava aqui pra me ajudar? Pra me ouvir? Onde está o seu profissionalismo? Está com medo?

– Não se aproxime de mim, se afasta!

– Eu vou ter seus olhos, e terei a orelha da sua filha, mas antes, quero seus lábios…

– Me largue! Por que você me beijou?

– Pra sentir você. Seu beijo é tão doce que quase me convencem a tirá-los também…

– Por favor!  Alguém, aqui!

– Aconteceu alguma coisa Amanda?

– Carlos, me tira daqui. Eu… Eu preciso sair daqui…

– Ele fez alguma coisa com você Amanda?

– Não Carlos. Não fez. Vamos embora, vamos!

– O que houve lá dentro Amanda?

– Nada, já disse. Preciso conversar com o delegado do caso. Mas antes eu preciso ligar pra escola. Preciso falar com minha filha…

/juhliana_lopes 05-04-2013

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