Insanidade – Fim dos Devaneios

buffalo-bill-s-steakhouse

Engoli meu choro e parei para ouvir o som melhor. Eram passos e gemidos. Homens estavam do lado de fora e quando eu olhei de maneira estratégica pela janela notei bandidos batendo em Miguel. Ele ao tentar se livrar dos caras se desequilibrou e acabou caindo porta a dentro do casebre. Os caras entraram atrás e nenhum deles percebeu a minha presença. Capturaram Miguel novamente e davam-lhe murros no seu estômago enquanto outros seguravam ele. Havia pelo menos quatro homens e todos queriam muito se divertir com Miguel. Acho que nenhum deles tinha uma arma, ou gostavam mesmo de bater nas pessoas antes de matá-las, em todo caso, vasculhei minha bolsa e peguei uma faca que eu havia pegado na minha casa. Todos estavam tão concentrados em Miguel que não perceberam quando eu me aproximei a tempo de dar o primeiro golpe.

Acertei o mais alto nas costas, a faca enterrada até o começo do cabo, puxei a faca de volta e foi quando ele se virou pra ver o que havia acontecido, antes que pudesse fazer qualquer coisa, esfaqueei seu estômago e com jeito o derrubei no chão. Os outros caras vieram pra cima de mim, mas eu consegui me livrar fazendo alguns cortes em seus braços e rostos. Enquanto um estava distraído com a dor do corte na bochecha, eu consegui enfiar a faca em seu pescoço, e o derrubei também. Os outros dois vieram pra cima de mim novamente, mas Miguel se ergueu, tomou a faca de minhas mãos e num golpe rápido acertou o olho de um, e a barriga do outro. Depois o que tinha perdido o olho teve a garganta perfurada e o que tinha ficado com a barriga cortada, teve a faca enterrada em seu peito.

Com todos no chão agonizando e o sangue jorrando calmamente tomando o chão, Miguel me olhou friamente e me puxou pela mão. Soltei e fui pegar a minha bolsa, quando saímos ainda o sol já estava alto, mas ainda não havia ninguém na rua. Peguei a faca e guardei na bolsa. Miguel olhou em volta e foi em direção a casa dos meus pais. Corri atrás dele perguntando o que ele pretendia e ele apenas agarrou meu braço com força e com a outra mão tampou a minha boca para que eu ficasse quieta. O carro do meu pai estava no quintal, Miguel, sem muita cerimônia arrombou a porta da cozinha, entrou e logo saiu com uma chave na mão. A chave do carro. Fiquei apavorada pois já era dia e alguém poderia aparecer e até meus pais iam acordar com o barulho. Miguel entrou no carro e estourou o pequeno portão ao dar ré, parou no meio da rua, me olhou e perguntou: “Vai vir?”.

Logicamente eu entrei no carro e logo estávamos bem longe dali. Andamos o caminho todo sem tocar uma palavra sobre os bandidos ou sobre minha casa. Paramos pra abastecer, pois Miguel ainda tinha um pouco de dinheiro. Antes de seguir viagem, ele parou o carro perto de uma lanchonete. Pediu que eu esperasse e foi dar uma volta. Depois de um certo tempo que ele havia sumido, vi quando entrou numa lanchonete com algumas sacolas. Saiu de lá com mais sacolas e voltou para o carro. Jogou algumas no banco de trás e as sacolas que ele trouxe da lanchonete deixou no meu colo. Voltamos pra estrada e eu resolvi perguntar:

– O que tem lá atrás?

– Roupas.

– Como você…

– Eu apenas consegui. Se você não notou, nossas roupas ficaram sujas de sangue e não é legal a gente ficar andando sujo por ai.

– Ah… Ok. – eu disse tentando parecer pensativa.

Paramos numa cidade um pouco distante para descansarmos. Havia uma pequena banca de jornal e nela, um dos jornais do dia trazia uma manchete sobre grandes eventos das cidades centrais. Num cantinho da primeira página, numa pequena nota, falava da fuga de um assassino perigoso de um sanatório. Nada muito específico. Comemos as coisas que Miguel trouxe da lanchonete no carro mesmo e então procuramos um hotel para dormir. Miguel foi sozinho a recepção e pediu que eu esperasse no carro. A essa altura eu já havia trocado de roupa e ele também. Ele voltou com um sorriso amistoso que confesso, era a primeira vez que eu via. Me disse para sorrir e me pegou no colo. Não entendi e não arrisquei a perguntar. ele me levou no colo até o quarto e me deixou em cima da cama. Logo atrás entrou um rapaz trazendo nossas bolsas e nos deixou a sós. Achei que agora era um momento adequado para perguntar, mas não foi preciso.

– Eu disse que nós estávamos em lua de mel. – disse Miguel tirando a camisa e entrando no banheiro.

– Entendi. Me pegar no colo foi só pra fazer cena…

– Exatamente. É bom que evitam perguntas.

– Não vamos ficar aqui por muito tempo não é?

– Não, não. amanhã cedo a gente vai embora.

– Ok.

Me deitei na cama. Não era muito confortável, mas comparado com todos os lugares que eu dormi nos últimos anos, era divino. Respirei fundo e fechei os olhos, tentando relaxar. Ouvi quando Miguel fechou a porta e o barulho do chuveiro começou. Acho que eu dormi, pois quando eu respirei fundo novamente tive aquela sensação de ter apenas piscado, porém quando abri o olho Miguel estava agachado próximo da cama olhando pra mim.

– Acorda.

– Sim…

– Toma um banho pra você dormir mais descansada.

Me levantei e segui pro banheiro. Estava tão tonta que não percebi que ao me despir, esqueci a porta aberta. Era natural fazer isso no sanatório, as meninas já estavam tão acostumadas umas com as outras, e os banhos coletivos eram quase sempre obrigatórios que era um tipo de preocupação que não tínhamos mais. Quando me dei conta, vi Miguel sentado na cama olhando pra mim, meio perdido. Quando ele percebeu que eu estava olhando, ele desviou o olhar e se levantou, indo pra janela. Eu fechei a porta e liguei o chuveiro.

Deixei a água cair no meu corpo e me perdi em pensamentos. Como será que meus pais estavam? Como será que reagiram ao ver que perderam o carro? Será que desconfiariam de mim? Logicamente sim, afinal, seja lá quem estivesse mantendo meu “quarto” no quartinho ia notar as coisas reviradas. Será que já denunciaram o sumiço? E as pessoas assaltadas por Miguel, será que já foram a delegacia? E os corpos no casebre, a essa altura alguém já deve ter notado…

Terminei meu banho, e percebi que eu não havia levado roupas pra vestir no banheiro. Sai enrolada com uma toalha, e notei que Miguel não estava no quarto. Me vesti no banheiro e quando sai, notei um bilhete na cama: “Fui trocar a placa do carro…”. Aproveitei a sua ausência e peguei a faca que estava na minha bolsa. Eu cogitei lavar só a faca, mas a bolsa toda por dentro estava suja. Consegui lavar a bolsa na pia do banheiro e pendurei por lá. Com o tempo um pouco abafado ela secaria logo. A faca também estava limpa e eu deixei junto com as minhas roupas.

Deitei, e cochilei novamente. Apesar de cansada o sono custou a vir, mas mantive meus olhos fechados. Ouvi quando a porta se abriu e fechou. Senti quando alguém deitou do outro lado da cama e quando se inclinou levemente sobre mim. Senti um leve beijo na bochecha e sua barba roçar levemente no meu rosto. Ele se virou e dormiu.

Quando o sol ainda estava pensando em sair, Miguel me acordou tocando nos meus cabelos, fazendo um cafuné, mas sem dizer uma palavra. Levantamos, pegamos nossas coisas e saímos. Ficamos nessa vida durante algumas semanas, Miguel “conseguia” dinheiro e trocava a placa do carro, normalmente com um do mesmo modelo e cor. Sofremos algumas tentativas de assalto e todas elas acabaram de forma semelhante a primeira no casebre.

Um dia porém, ao nos instalarmos num hotel, e darmos uma volta pela cidade, alguns bandidos se aproximaram, porém ao nos olharem com calma, se afastaram correndo. Algo estava errado… Paramos num barzinho e sentamos numa mesa para pedir algo pra comer, num canto escuro como Miguel gostava. Numa pequena tevê, daquelas que as pessoas olham apenas as imagens porque é impossível ouvir alguma coisa, havia uma notícia onde mostravam o sanatório. Depois apareciam os meus pais e… Meus pais? Sim, meus pais diziam algo pras câmeras e logo uma mulher também falava com cara de desesperada. Curiosamente, a mulher que “atacou” Miguel no sanatório pela morte do filho dela. Logo depois, apareciam as nossas fotos. Fotos do registro do sanatório, pois além da cara totalmente acabada, estávamos bem mais pálidos. Ninguém pareceu notar muito, mas ao terminarmos de comer,  notei que a notícia estava passando novamente.

Saímos disfarçando um pouco e seguimos pro hotel com a intenção de irmos embora na mesma noite. Pra nossa infelicidade não foi possível. O hotel estava cercado de policiais, e quando entramos, vi quando dois deles desciam as escadas com minhas coisas na mão, inclusive as facas (adquiri mais algumas pelo caminho). Aos nos verem, vieram todos pra cima, mas Miguel não estava muito disposto a se entregar. Acertou um policial com um soco mas logo foi rendido por outro que o jogou no chão. Aparentemente eu estava tão “diferente” que demoraram a perceber que eu era a moça fugitiva, tanto que um dos policiais ainda disse: “Calma moça, agora ele vai pagar por tudo…”. Eu ri, e tomei uma das facas da sua mão. Foi mais rápido do que ele pudesse imaginar que aconteceria e eu acertei seu pescoço. Os outros policiais tentaram me render mas com um jeito que Miguel havia me ensinado consegui a arma de um dos guardas. Agora eu tinha a cabeça de um deles na minha mira. Soltaram Miguel a meu pedido, porém outro me surpreendeu e me derrubou, a arma voou longe e outro policial a recuperou. Miguel tentou tomá-la, mas com o susto o policial atirou. Miguel caiu no chão sangrando. Eu chorei, e tentei de todas as formas me soltar dos policiais, até que outro policial, já sem paciência pegou uma arma que colocou na minha testa. Ele gritava pra eu ficar quieta ou ele atirava. Atirou.

Um pouco antes do tiro Miguel havia se levantado e dado uma chave de braço no policial, que atirou em mim. Quando Miguel viu meu peito sangrando, se encheu de ódio e apertou o pescoço do policial com toda força. Ele morreu com o pescoço praticamente esmagado. Miguel então se entregou. Seus olhos ainda encontraram os meus a tempo de dizer um Adeus.

Apesar de tudo, agora Miguel estava em paz. E quando eu fechei s olhos, também fiquei.

/juhliana_lopes 25-03-2013

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s