Insanidade – Prazer, Miguel.

rua_escuraFoi com meu grito que ele se virou e percebeu que não podia me deixar sozinha. Foi com meu próprio grito que eu notei a força que eu tinha e o que eu havia acabado de fazer…

Um assaltante. Ele me abordou pedindo dinheiro, tinha uma faca pequena nas mãos. Eu disse que não tinha nada e ele tentou me agarrar, com o susto eu dei um tapa na sua mão que fez com que a faca fosse longe e com a outra mão acertei um soco na sua boca. Eu nunca tinha dado um soco na minha vida mas acho que aprendi só de observar. Ele ficou meio tonto mesmo assim eu não parei, depois do soco na boca, eu acertei outro no seu estômago e ele caiu no chão. Comecei a chutar sua barriga e a sua cara. Em pouco segundos ele estava cheio de sangue e mesmo assim eu não conseguia parar. Com uma certa dificuldade eu o levantei do chão e segurei seu pescoço por trás jogando sua cabeça contra uma parede próxima. Antes que ele caísse de novo eu o agarrei e ia fazer o mesmo movimento até que meu amigo me abraçou por trás imobilizando meus braços. Eu estava ofegante e cheguei a babar, todo o ódio que estava em mim novamente veio a tona. O cara agora estava no chão gemendo de dor e todas as pessoas me olhavam em volta assustados. Meu amigo me arrastou pra longe dali e depois de andarmos um pouco, desta vez ele me segurando pelo braço, chegamos a um casebre velho onde entramos.

Parecia que foi abandonado a muito tempo, muitas coisas sujas e pó. Ele me sentou num sofá e disse: “Não saia daí!”, e saiu. Eu realmente fiquei lá, ainda estava agitada com o evento e não sabia muito bem o que havia acontecido comigo, mas sabia que já havia sentido aquilo antes. Ele demorou pra voltar, tanto que eu não vi que horas ele chegou pois acabei dormindo onde eu estava. Acordei com ele tentando me fazer comer alguma coisa.

– O que é isso?

– Come logo.

– O que aconteceu?

– Você quase matou um cara e dormiu.

– Ah sim, acho que me lembro… Onde você roubou essas coisas?

Talvez eu tenha dito de uma forma grosseira ou ele que não gosta de brincadeiras, em todo caso ele me olhou muito feio quando eu disse essas palavras e respondeu seco:

– Comprei.

– Com que dinheiro?

– Com o dinheiro que estavam me devendo. Vai comer ou não?

– Se eu escolher o não?

– Eu te obrigo a comer e vou pouco me importar se você engasgar.

– Ok, eu como sozinha.

Ficamos ali um bom tempo apenas comendo e olhando pra cara um do outro sem trocar uma palavra. Como começou a anoitecer ele acendeu uma vela e depois de um longo silêncio disse:

– Nada mal pra uma primeira…

– Não foi primeira.

Agora eu estava com a cabeça baixa, observando minhas unhas.

– Não? Foi por algo do gênero que você foi parar no sanatório?

– É, pode ser…

– Ei… – ele agora estava na minha frente e passou a mão no meu rosto para que eu olhasse pra ele. Segurou levemente porém firme no meu queixo para que eu não desviasse o olhar. – Confia em mim. Só temos um ao outro agora, e você me deve!

– Te devo?

– Você sabe da minha vida e se você não tivesse surtado eu já estava bem longe. Agora vai, fala logo.

– Tudo bem…

A verdade é que eu quase matei meu irmão. Não era algo que eu queria, mas quase aconteceu. Vivíamos brigando, justamente por minha mãe sempre dar mais privilégios a ele. O único que me dava mais atenção era meu pai, então um dia eu estava no meu jardim com algumas amigas e meu irmão apareceu me xingando dizendo que eu era uma inútil. Educadamente eu pedi para que minhas amigas voltasse outra hora, e assim que elas foram embora, educadamente fiz meu irmão tropeçar na escada e bater a cabeça no degrau. Foi um leve puxão na sua perna que vez abrir um corte enorme na testa. Na hora eu fiquei em choque, não era eu que tinha feito aquilo, eu mesma não podia acreditar, no entanto, meu irmão viu meu estado e fez um drama enorme, o modo como ele falava dizendo que eu havia tentado matar ele me fez ficar com cada vez mais raiva. Minha mãe na hora me fez várias acusações e não quis me ouvir. Eu repetia desesperadamente que tinha sido um acidente  mas não adiantou, com toda essa pressão eu explodi, e me lembro de gritar: Eu não tentei, mas agora eu vou tentar pra vocês terem razão. Não lembro de muita coisa, mas meu pai me conta que eu joguei a cabeça do meu irmão contra a parede da cozinha, manchando o azulejo de sangue e quando eu o derrubei eu pisava em sua barriga e pescoço. Eu também empurrei minha mãe quando ela tinha tentado me afastar e ela caiu na sala, por sorte não se machucou. No ápice da agressão eu parei e desmaiei. Acho que parte da minha mente percebeu que tinha algo errado e me desligou. Quando eu acordei eu estava no sanatório e desde então tem sido a minha vida. Não sei como está meu irmão exatamente, mas acredito que muito bem, tava até viajando.

Eu comecei a chorar quando terminei de contar. Ele não disse nada, apenas levantou e pegou uma cerveja que estava num isopor, foi até a janela e ficou lá olhando a rua escura.

– Qual o seu nome?

– Oi?

– Seu nome. Nós fugimos, você me ajudou e me trouxe pra cá mas eu não sei seu nome.

– Precisa?

– Acho que eu preciso, ou quem eu vou chamar no meio da multidão se um dia a gente se perder? Ei você? Não é bonito…

– Acho justo. Miguel.

– O meu é Laura.

Ficamos um tempo olhando um pro outro e então eu levantei para dar uma volta pela casa. Quando cheguei na janela percebi que reconhecia o lugar.

– Minha casa!

– O que?

– Ali, é a minha casa!

– Que merda hein…

– Merda nada! Vamos lá!

– Fazer o que lá, tá louca? Seus pais acham que você tá no sanatório, ou não a essa hora pode ser que tenham sentido falta da gente…

– Eles não estão em casa…

– Como você sabe?

– Ora, meu irmão chegou de viagem, com certeza eles foram jantar fora e deixaram a única luz do corredor acessa como sempre fazem… Eu só preciso ir lá, pegar as minhas coisas e ir embora…

– Ta bom, vai… – disse Miguel sentando no sofá. – Eu espero aqui.

Eu fui, e como previsto não havia ninguém em casa, entrei pela porta da cozinha e vi um pouco da mancha vermelha que ficou no azulejo como meu pai tinha dito. Estava mais pra rosada e pequena mas ainda estava lá. Subi para meu quarto mas não havia nada lá, apenas as tranqueiras do meu irmão. Desci para o quartinho pensando que talvez tivessem jogado minhas coisas fora, mas lá encontrei tudo no lugar, era como se meu quarto tivesse ido pra lá. Não havia tempo pra sentimentalismo, então peguei uma bolsa, coloquei umas roupas, cadernos, canetas e mais algumas coisas. Fui embora correndo, sabia que quanto mais eu ficasse naquele lugar seria pior. Ao voltar para o casebre Miguel não estava lá. O que poderia ter acontecido? Ele simplesmente foi embora e me deixou? Me ajoelhei no chão e comecei a chorar porém não era bem por ele ter ido embora mas sim por tudo que tinha acontecido até ali. Eu poderia ter ficado ali chorando até o amanhecer se um barulho vindo do lado de fora não tivesse me chamado a atenção.

/juhliana_lopes 19-03-2013

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s