Insanidade – Explosão e controle

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Passaram-se alguns dias, e então chegou o dia da grande festa!

A Grande Festa, era um evento anual onde o sanatório abria as portas para os familiares dos internos com uma festa onde aproveitavam para vender algumas coisas nas barraquinhas, e os “doidos mais sãos” ajudavam a organizar. Era uma ótima oportunidade para as famílias “lembrarem” de seus filhos, irmãos ou outros parentes que estavam esquecidos por lá. Todos podiam participar, inclusive os considerados “perigosos”, haviam muitos enfermeiros de plantão prontos para agir ao menor sinal de problema. Por algum motivo raramente acontecia algum problema, a festa parecia realmente acalmar os ânimos de todo mundo.

Era o momento onde os internos podiam interagir entre si, mulheres e homens misturados, curtindo a festa, rolava até umas paqueras nesse meio tempo. Era bom saber que não se está sozinho naquele ambiente podre. O tema desse ano era festa a fantasia e eu havia ganhado (na verdade era o que havia sobrado pra mim) um vestido de época, tinha até espartilho e aquelas frescuras todas. Com a ajuda de algumas internas e de Débora que fez questão de deixar meu decote bem visível, me vesti e fui para o pátio. Andei um pouco, a música era boa. O ar parecia mais puro, a brisa me fazia me sentir leve. Fui para o campo de banho de sol e vi a árvore da minha última aventura. Imaginei se ele iria querer sair do quarto para a festa. Por que não lhe fazer uma visita? Podia ser que eu conseguisse acesso ao quarto dele de novo… Quando estava a caminho dos quartos ouvi uma voz familiar. Meus pais.

Senti o abraço de minha mãe e por um momento pensei que estava acordando de um pesadelo e voltado para casa, mas a verdade que apenas eu senti o calor do abraço. Meu pai também me abraçou e passou a mão no meu rosto. Me perguntaram como eu estava e eu respondi apenas: “Bem”. Eles não se preocuparam muito em saber mais, disseram que já tinham que ir embora porque meu irmão estava viajando e voltava hoje. Perguntei quando que ele havia viajado e minha mãe respondeu que semana passada. A decepção me veio aos olhos em forma de lágrimas, que logo se tornaram gotas de ódio. Apenas disse: “Vocês me visitam apenas uma vez por ano e suas visitas não duram mais do que 30 segundos. Ele claro, merece mais atenção apesar de viver o tempo todo em casa. Podem ir, mas não precisam voltar ano que vem.” Eles não prestaram atenção no que eu falei e foram embora.

O dia estava ótimo até aquele momento. Me senti destruída, sem chão. Voltei para a árvore. Fiquei ali olhando pra ela, pensando em tudo que tinha acontecido comigo, e em como eu me sentia agora. De repente era como se eu tivesse vendo a minha mãe no lugar da árvore. As gotas de ódio voltaram e eu explodi. Gritava como se realmente estivesse discutindo com ela: “Você nunca me amou! Ele sempre foi o preferido! Por que não pode mostrar o mínimo de afeto por mim? Por que não pode me aceitar como eu sou?” Comecei a bater na árvore, como as inúmeras vezes que eu batia na porta do meu quarto quando minha mãe me trancava. Eu chorava compulsivamente, e em um momento eu me desequilibrei por causa do vestido e cai. Me sentia fraca, sem a menor vontade de levantar. Fiquei por ali e dormi.

Quando acordei estava num quarto, mas estava iluminado demais pra ser o meu. Quando me sentei na cama e olhei ao redor percebi que já estive ali. Quando eu ia chamar por alguém, ele entrou no quarto. Carregava uma bandeja com alguns doces e salgados e refrigerante. Colocou na cama e sentou de frente pra mim.

“Você está bem?” Ele tinha um ar preocupado. Eu respondi que sim, então ele explicou que me viu com meus pais. Viu quando eu briguei com a árvore e viu quando eu dormi. Então ele me pegou e me trouxe pro quarto, enquanto os enfermeiros se ocupavam em jogar cantadas em cima das irmãs de alguns internos.

Agradeci a gentileza e ficamos ali conversando. Ele me perguntou como que eu havia parado ali, mas eu disse que não estava bem para falar sobre aquilo naquele momento. Ele respeitou e me entregou um desenho. Era a árvore e nós dois perto dela, rindo. Os corpos lógico não tinham muita definição, eram como duas sombras, mas pela forma era claro que éramos nós dois. Eu estava tão anestesiada com todas as emoções em curto prazo que eu havia sentido que não havia reparado na fantasia dele. Também parecia uma roupa de época, pois o terno tinha um corte diferente. Ele me perguntou se eu estava bem novamente e perguntou se podíamos ir para fora. Respondi que sim e então quando saímos foi a vez dele encontrar familiares, porém não eram os dele. Era uma mãe de uma das pessoas que ele havia matado no banco com as redes. Ela chegou furiosa insultando-o e dizendo que ele havia estragado a sua vida. Ele não respondeu nada, ficou parado. Ela continuava o insultando e chegando mais perto, até que ela lhe deu um tapa na cara. Pensei que ele iria fazer algo com ela, mas ele permaneceu parado. Alguns enfermeiros que viram a cena se aproximaram e tiraram a mulher de perto. Ele pegou a minha mão e seguimos até a árvore.

Sentamos e ficamos um bom tempo sem trocar uma palavra. Mesmo com um certo receio perguntei: “Por que você não disse nada?” Ele me olhou por um tempo e depois olhou para o chão, e respondeu: “Que culpa ela tem? Eu matei o filho dela. Não era algo que eu queria mas eu matei, e senti até um certo prazer na hora. O prazer foi meu e a dor foi dela, ela só estava tentando desabafar isso, me mostrar seu sofrimento, normal.” Permaneci em silêncio, pensando em suas palavras. Perdida em meus pensamentos ouvi um som. Quando levantei a cabeça vi quando um enfermeiro levava uma das irmãs de algum interno para um canto. Meu amigo também viu e se levantou rapidamente. Com um pouco de dificuldade eu levantei também e olhei pra ele, que falou: Vá no seu quarto, troque de roupa e me espere perto da porta do meu quarto, rápido.

Não sabia exatamente o que ele tinha em mente mas fiz o que ele pediu. O medo percorria meu corpo, eu estava sozinha no corredor da ala dos homens, se algum outro interno me visse ali e tentasse algo? Com o que eu iria me defender? Então ele apareceu com dois jalecos de enfermeiro. Falou para eu vestir enquanto ele vestia um também. Saímos como se nada estivesse acontecendo em direção ao portão. Ele me contou que aquele enfermeiro que estava com a menina nos fundos era quem estava responsável pela portaria que agora estava vazia. Saímos parecendo o mais natural possível até que um casal nos abordou, por sorte eles só queriam saber se a festa ainda estava acontecendo então indicamos o portão e eles seguiram seu caminho.

Estávamos livres e tudo tinha sido tão natural que eu mal podia acreditar. Andamos muito, o mais longe possível, porém tentando não chamar a atenção. Quando chegamos a uma distância razoavelmente boa nos livramos dos jalecos. Perguntei pra onde iríamos e ele não me respondeu. Ao chegarmos numa estação de trem, ele entrou. Puxei seu braço perguntando o que ele estava fazendo, não tínhamos como pegar um trem. Ele então me disse que tinha um dinheiro guardado que ele ganhou dos enfermeiros quando estes alugavam seu quarto como motel pra pegar as internas em pior situação. Ele comprou os bilhetes e embarcamos. Conseguimos ir para bem longe, até chegamos num lugar com bastante movimento. Saímos da estação, ele pegou a minha mão e me falou: “Bem, agora cada um vai pra um lado, você consegue se virar sozinha…” Não respondi. Aquelas palavras iam e voltavam em minha mente como martelo. Não conseguia acreditar. Ele soltou minhas mãos ao ver meu estado e começou a caminhar. Eu fiquei ali parada no meio da rua.

Foi com meu grito que ele se virou e percebeu que não podia me deixar sozinha. Foi com meu próprio grito que eu notei a força que eu tinha e o que eu havia acabado de fazer…

/juhliana_lopes 11-03-2013

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