Insanidade

Árvore_do_jardim_(2)

Esta história pode ficar confusa e fora de ordem, mas é assim que os fatos me vem a cabeça, confusos e fora de ordem, então se você for um pouco louco como eu, irá entender perfeitamente.

Não sei exatamente há quanto tempo estou nessa vida, mas o motivo é claro: meus pais. Se eles me vissem agora de certo não me reconheceriam mas, pelo menos não iam me mandar pro quarto da forma como eles mandavam. Sinto falta dos abraços da minha mãe, das brincadeiras com meu pai… Se eu pudesse escolher, seria criança pra sempre…

Como não há escolha, ainda mais no rumo que eu tomei, o melhor a se fazer é seguir em frente mesmo e torcer pra nenhuma merda acontecer. Claro que seria mais difícil se eu estivesse sozinha, mas eu tenho ele… Ele foi a melhor pessoa que eu poderia ter encontrado nesse caminho, e apesar de tudo é a única pessoa em que eu posso confiar…

O que fazemos? Matamos. Um casal psicopata. Acho que já tava bem claro… Nos conhecemos quando estávamos no sanatório. Pode parecer estranho mas foi a única forma de não enlouquecer naquele lugar.

Naquele dia eu tinha brigado com uma das internas. Eu odiava que tocassem no meu cabelo e ela insistiu mesmo assim, acertei um soco na boca que acabou rasgando por dentro por causa dos dentes. Alguns enfermeiros estavam cheios do seu trabalho, então colocavam uma ou duas internas na ala masculina como castigo, depois diziam que nós mesmas tínhamos ido pra lá e não tiveram como evitar o estupro a tempo. As meninas não iam lá, sabiam que era perigoso… Só a Débora mas, ela era ninfomaníaca então era isso que ela tava procurando mesmo.

No mesmo dia, um novo homem foi transferido para a ala masculina. O enfermeiro fez questão de me contar os “dotes” dele. Havia sido preso por matar algumas pessoas em um banco num surto. Ele vendia redes na rua e quase todas as pessoas foram encontradas com as redes enroladas no pescoço, tinha uma que ele tinha matado a facadas mesmo. Ele odiava que as pessoas olhassem pra ele, principalmente nos seus olhos, isso fazia com que ele ficasse mais violento.

Sem muita cerimônia ele abriu a porta do quarto do tal assassino e me jogou lá dentro e trancou a porta. Eu estava assustada, tentei não olhar pra nada e segui direto para o canto da parede. Fiquei com a cabeça abaixada, abraçada aos meus joelhos, quase em posição fetal. O silêncio devorava a minha mente e eu pensava em mil coisas ao mesmo tempo. Comecei a tremer e tentava olhar fixamente para a parede. Comecei a pensar que podia ser um blefe do enfermeiro, que na verdade não havia ninguém na sala e eu estava com medo a toa. Podia ser que fosse só um gato ou um cachorro na sala. Eu tentava me acalmar pois meu coração já estava querendo sair pela boca. Depois de muito pensar em diversas possibilidade, levantei a cabeça e olhei pro lado.

Eu nunca senti um susto tão grande na minha vida, minha cabeça ficou doendo por horas depois que eu bati com ela na parede no impulso de me afastar. Seus olhos cor de mel, seu rosto, estava tão próximo do meu, apenas esperando que eu me virasse. Por um momento eu quase entrei na parede pra tentar escapar, eu parecia um bicho acuado. Ele por sua vez mantinha uma calma irritante, apenas me olhando, era difícil para meus olhos atordoados não encontrarem os dele. Quando, depois de um longo tempo, ele levantou a mão, abaixei a cabeça e coloquei os braços sobre o rosto pensando que ele ia me bater. Na verdade ele tirou meu braços da frente delicadamente e com um toque suave tirou o cabelo do meu rosto colocando atrás da minha orelha. Depois disso ele levantou e se sentou em outro canto e começou a rabiscar em um papel.

O medo, a desconfiança me paralisavam e ficamos assim um bom tempo, eu num canto e ele no outro. Quando ele olhava pra mim eu desviava o olhar, mas não conseguia parar de olhar pra ele com curiosidade sobre o que estava fazendo. Até que ele disse, de onde estava: “Dá pra ficar quieta e olhar pra cá?” Eu gelei. Sua voz forte invadia meus ouvidos e o medo se tornava mais forte. Até que ele largou o lápis e se levantou, pegou uma fita adesiva que tinha do outro lado do quarto e pendurou o papel na parede. Então ele veio até mim que novamente me encolhi o máximo que pude. Ele estendeu a mão para que eu levantasse, porém meu medo era tanto que eu ignorei o gesto. Ele bufou e pegou nos meus braços me obrigando a levantar e me levou até próximo do papel.

Era um desenho lindo, sombreado com detalhes de uma técnica que deixava o desenho suave e sombrio. Observando bem, era eu desenhada, sentada no canto da parede. Fique ali pensando naquele desenho quando fui surpreendida por um beijo na bochecha e um “relaxa, senta ai”. Sentei na cama dele e ele começou a puxar conversa.

Aos poucos, depois de algumas piadinhas idiotas sobre o estado do meu cabelo e cantadas baratas, ele me fez rir e conversamos por um bom tempo. Ele me contou sobre o surto e como tinha sido difícil o relacionamento dele com o irmão depois que os pais morreram. Que ele fugiu pra viver sozinho e desde então tinha alguns ataques mas nunca tinha matado ninguém, só ferido gravemente. O último o levou pra prisão e com a ajuda de uma psicóloga ele conseguiu ficar ali no sanatório. Me disse que além de desenhar ele gostava de escrever e era as únicas coisas que ele fazia ali desde então.

Os enfermeiros bem que estranharam a ausência de gritos e vieram ver o que estava acontecendo. Ao abrirem a porta, viram que eu estava sentada na cama e ele com um papel na mão lendo, um texto curto que eu havia feito por insistência dele. Eles espumavam pela boca por perceber que eu não tinha recebido o meu “castigo merecido”. Me puxaram pelos cabelos e me prensaram contra a parede me deixando de costas pra ele. Gritaram: “E ai, você não vai fazer nada seu merda?” O rapaz olhou pra eles e pra mim naquele estado, e respondeu com um sonoro “Sim”. Quando dei por mim um enfermeiro já estava no chão com a mão na boca e o outro estava levando socos rápidos no estômago. Ele também foi ao chão, mas o outro se levantou e estava dando uma chave de braço no rapaz. Eu tinha que ajudar de alguma forma, então com um impulso chutei a suas costas fazendo perder o equilíbrio e soltar o rapaz. Ele se virou pra mim e eu acertei com um chute no saco. Ele caiu no chão e eu subi sobre ele apertando seu pescoço. Acho que estava em surto pois me lembrei de um momento muito semelhante do meu passado. Quando eu comecei a sentir os primeiros espasmos, o assassino do quarto me puxou e me fez correr pro corredor. Corremos juntos e saímos no campo onde alguns internos tinham o direito de tomar sol, naquela hora não havia ninguém lá fora. Depois de muito correr paramos perto de uma árvore. Os dois ofegantes, cansados, de repente risadas. Nunca rimos tanto, parecíamos duas crianças. A adrenalina ainda nos fazia tremer mas o que fizemos estava mais para uma brincadeira de criança do que para uma insanidade completa…. Logo outros enfermeiros nos acharam e nos arrastaram pra dentro. Ríamos muito e eu fui levada novamente para meu quarto com as outras meninas. Pra minha felicidade não ia ser a última vez que íamos nos ver…

/juhliana_lopes 08-03-2013

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