Insanidade – Fim dos Devaneios

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Engoli meu choro e parei para ouvir o som melhor. Eram passos e gemidos. Homens estavam do lado de fora e quando eu olhei de maneira estratégica pela janela notei bandidos batendo em Miguel. Ele ao tentar se livrar dos caras se desequilibrou e acabou caindo porta a dentro do casebre. Os caras entraram atrás e nenhum deles percebeu a minha presença. Capturaram Miguel novamente e davam-lhe murros no seu estômago enquanto outros seguravam ele. Havia pelo menos quatro homens e todos queriam muito se divertir com Miguel. Acho que nenhum deles tinha uma arma, ou gostavam mesmo de bater nas pessoas antes de matá-las, em todo caso, vasculhei minha bolsa e peguei uma faca que eu havia pegado na minha casa. Todos estavam tão concentrados em Miguel que não perceberam quando eu me aproximei a tempo de dar o primeiro golpe.

Acertei o mais alto nas costas, a faca enterrada até o começo do cabo, puxei a faca de volta e foi quando ele se virou pra ver o que havia acontecido, antes que pudesse fazer qualquer coisa, esfaqueei seu estômago e com jeito o derrubei no chão. Os outros caras vieram pra cima de mim, mas eu consegui me livrar fazendo alguns cortes em seus braços e rostos. Enquanto um estava distraído com a dor do corte na bochecha, eu consegui enfiar a faca em seu pescoço, e o derrubei também. Os outros dois vieram pra cima de mim novamente, mas Miguel se ergueu, tomou a faca de minhas mãos e num golpe rápido acertou o olho de um, e a barriga do outro. Depois o que tinha perdido o olho teve a garganta perfurada e o que tinha ficado com a barriga cortada, teve a faca enterrada em seu peito.

Com todos no chão agonizando e o sangue jorrando calmamente tomando o chão, Miguel me olhou friamente e me puxou pela mão. Soltei e fui pegar a minha bolsa, quando saímos ainda o sol já estava alto, mas ainda não havia ninguém na rua. Peguei a faca e guardei na bolsa. Miguel olhou em volta e foi em direção a casa dos meus pais. Corri atrás dele perguntando o que ele pretendia e ele apenas agarrou meu braço com força e com a outra mão tampou a minha boca para que eu ficasse quieta. O carro do meu pai estava no quintal, Miguel, sem muita cerimônia arrombou a porta da cozinha, entrou e logo saiu com uma chave na mão. A chave do carro. Fiquei apavorada pois já era dia e alguém poderia aparecer e até meus pais iam acordar com o barulho. Miguel entrou no carro e estourou o pequeno portão ao dar ré, parou no meio da rua, me olhou e perguntou: “Vai vir?”.

Logicamente eu entrei no carro e logo estávamos bem longe dali. Andamos o caminho todo sem tocar uma palavra sobre os bandidos ou sobre minha casa. Paramos pra abastecer, pois Miguel ainda tinha um pouco de dinheiro. Antes de seguir viagem, ele parou o carro perto de uma lanchonete. Pediu que eu esperasse e foi dar uma volta. Depois de um certo tempo que ele havia sumido, vi quando entrou numa lanchonete com algumas sacolas. Saiu de lá com mais sacolas e voltou para o carro. Jogou algumas no banco de trás e as sacolas que ele trouxe da lanchonete deixou no meu colo. Voltamos pra estrada e eu resolvi perguntar:

– O que tem lá atrás?

– Roupas.

– Como você…

– Eu apenas consegui. Se você não notou, nossas roupas ficaram sujas de sangue e não é legal a gente ficar andando sujo por ai.

– Ah… Ok. – eu disse tentando parecer pensativa.

Paramos numa cidade um pouco distante para descansarmos. Havia uma pequena banca de jornal e nela, um dos jornais do dia trazia uma manchete sobre grandes eventos das cidades centrais. Num cantinho da primeira página, numa pequena nota, falava da fuga de um assassino perigoso de um sanatório. Nada muito específico. Comemos as coisas que Miguel trouxe da lanchonete no carro mesmo e então procuramos um hotel para dormir. Miguel foi sozinho a recepção e pediu que eu esperasse no carro. A essa altura eu já havia trocado de roupa e ele também. Ele voltou com um sorriso amistoso que confesso, era a primeira vez que eu via. Me disse para sorrir e me pegou no colo. Não entendi e não arrisquei a perguntar. ele me levou no colo até o quarto e me deixou em cima da cama. Logo atrás entrou um rapaz trazendo nossas bolsas e nos deixou a sós. Achei que agora era um momento adequado para perguntar, mas não foi preciso.

– Eu disse que nós estávamos em lua de mel. – disse Miguel tirando a camisa e entrando no banheiro.

– Entendi. Me pegar no colo foi só pra fazer cena…

– Exatamente. É bom que evitam perguntas.

– Não vamos ficar aqui por muito tempo não é?

– Não, não. amanhã cedo a gente vai embora.

– Ok.

Me deitei na cama. Não era muito confortável, mas comparado com todos os lugares que eu dormi nos últimos anos, era divino. Respirei fundo e fechei os olhos, tentando relaxar. Ouvi quando Miguel fechou a porta e o barulho do chuveiro começou. Acho que eu dormi, pois quando eu respirei fundo novamente tive aquela sensação de ter apenas piscado, porém quando abri o olho Miguel estava agachado próximo da cama olhando pra mim.

– Acorda.

– Sim…

– Toma um banho pra você dormir mais descansada.

Me levantei e segui pro banheiro. Estava tão tonta que não percebi que ao me despir, esqueci a porta aberta. Era natural fazer isso no sanatório, as meninas já estavam tão acostumadas umas com as outras, e os banhos coletivos eram quase sempre obrigatórios que era um tipo de preocupação que não tínhamos mais. Quando me dei conta, vi Miguel sentado na cama olhando pra mim, meio perdido. Quando ele percebeu que eu estava olhando, ele desviou o olhar e se levantou, indo pra janela. Eu fechei a porta e liguei o chuveiro.

Deixei a água cair no meu corpo e me perdi em pensamentos. Como será que meus pais estavam? Como será que reagiram ao ver que perderam o carro? Será que desconfiariam de mim? Logicamente sim, afinal, seja lá quem estivesse mantendo meu “quarto” no quartinho ia notar as coisas reviradas. Será que já denunciaram o sumiço? E as pessoas assaltadas por Miguel, será que já foram a delegacia? E os corpos no casebre, a essa altura alguém já deve ter notado…

Terminei meu banho, e percebi que eu não havia levado roupas pra vestir no banheiro. Sai enrolada com uma toalha, e notei que Miguel não estava no quarto. Me vesti no banheiro e quando sai, notei um bilhete na cama: “Fui trocar a placa do carro…”. Aproveitei a sua ausência e peguei a faca que estava na minha bolsa. Eu cogitei lavar só a faca, mas a bolsa toda por dentro estava suja. Consegui lavar a bolsa na pia do banheiro e pendurei por lá. Com o tempo um pouco abafado ela secaria logo. A faca também estava limpa e eu deixei junto com as minhas roupas.

Deitei, e cochilei novamente. Apesar de cansada o sono custou a vir, mas mantive meus olhos fechados. Ouvi quando a porta se abriu e fechou. Senti quando alguém deitou do outro lado da cama e quando se inclinou levemente sobre mim. Senti um leve beijo na bochecha e sua barba roçar levemente no meu rosto. Ele se virou e dormiu.

Quando o sol ainda estava pensando em sair, Miguel me acordou tocando nos meus cabelos, fazendo um cafuné, mas sem dizer uma palavra. Levantamos, pegamos nossas coisas e saímos. Ficamos nessa vida durante algumas semanas, Miguel “conseguia” dinheiro e trocava a placa do carro, normalmente com um do mesmo modelo e cor. Sofremos algumas tentativas de assalto e todas elas acabaram de forma semelhante a primeira no casebre.

Um dia porém, ao nos instalarmos num hotel, e darmos uma volta pela cidade, alguns bandidos se aproximaram, porém ao nos olharem com calma, se afastaram correndo. Algo estava errado… Paramos num barzinho e sentamos numa mesa para pedir algo pra comer, num canto escuro como Miguel gostava. Numa pequena tevê, daquelas que as pessoas olham apenas as imagens porque é impossível ouvir alguma coisa, havia uma notícia onde mostravam o sanatório. Depois apareciam os meus pais e… Meus pais? Sim, meus pais diziam algo pras câmeras e logo uma mulher também falava com cara de desesperada. Curiosamente, a mulher que “atacou” Miguel no sanatório pela morte do filho dela. Logo depois, apareciam as nossas fotos. Fotos do registro do sanatório, pois além da cara totalmente acabada, estávamos bem mais pálidos. Ninguém pareceu notar muito, mas ao terminarmos de comer,  notei que a notícia estava passando novamente.

Saímos disfarçando um pouco e seguimos pro hotel com a intenção de irmos embora na mesma noite. Pra nossa infelicidade não foi possível. O hotel estava cercado de policiais, e quando entramos, vi quando dois deles desciam as escadas com minhas coisas na mão, inclusive as facas (adquiri mais algumas pelo caminho). Aos nos verem, vieram todos pra cima, mas Miguel não estava muito disposto a se entregar. Acertou um policial com um soco mas logo foi rendido por outro que o jogou no chão. Aparentemente eu estava tão “diferente” que demoraram a perceber que eu era a moça fugitiva, tanto que um dos policiais ainda disse: “Calma moça, agora ele vai pagar por tudo…”. Eu ri, e tomei uma das facas da sua mão. Foi mais rápido do que ele pudesse imaginar que aconteceria e eu acertei seu pescoço. Os outros policiais tentaram me render mas com um jeito que Miguel havia me ensinado consegui a arma de um dos guardas. Agora eu tinha a cabeça de um deles na minha mira. Soltaram Miguel a meu pedido, porém outro me surpreendeu e me derrubou, a arma voou longe e outro policial a recuperou. Miguel tentou tomá-la, mas com o susto o policial atirou. Miguel caiu no chão sangrando. Eu chorei, e tentei de todas as formas me soltar dos policiais, até que outro policial, já sem paciência pegou uma arma que colocou na minha testa. Ele gritava pra eu ficar quieta ou ele atirava. Atirou.

Um pouco antes do tiro Miguel havia se levantado e dado uma chave de braço no policial, que atirou em mim. Quando Miguel viu meu peito sangrando, se encheu de ódio e apertou o pescoço do policial com toda força. Ele morreu com o pescoço praticamente esmagado. Miguel então se entregou. Seus olhos ainda encontraram os meus a tempo de dizer um Adeus.

Apesar de tudo, agora Miguel estava em paz. E quando eu fechei s olhos, também fiquei.

/juhliana_lopes 25-03-2013

Meu prazer

sangue

 

Eu te amei.

Amei como nunca amei ninguém na minha vida.

Desejei a ti da maneira mais quente possível.

Fiz coisas por você que ninguém jamais faria.

Aceitei coisas por você que ninguém concordaria.

Movi céus e terras, fiz todas as suas vontades,

e o que você me diz? Não.

Desde então eu ando vagando por ai,

um corpo sem alma, destruído,

com apenas um objetivo.

Você sorri, vive, está sempre linda.

Você lembra de mim mas sem nenhum sentimento.

Eu olho pra você e não sinto mais amor.

Eu olho pra você e não sinto mais emoção.

O meu coração está no fundo de um rio.

Vivo apenas para um objetivo.

Sinto fome. Sinto sede.

A comida não me satisfaz.

A bebida não me sacia.

Não sinto prazer.

Apenas uma coisa saciaria meus anseios.

Apenas uma coisa vai me preencher.

Esta noite terei o que é meu por direito.

Hoje eu irei atender aos meus desejos.

Hoje verei seu sangue jorrar.

Seu sangue saciará a minha sede.

Seu coração irá satisfazer a minha fome.

E sua morte será o meu prazer.

juhliana_lopes (23-03-2013)

Insanidade – Prazer, Miguel.

rua_escuraFoi com meu grito que ele se virou e percebeu que não podia me deixar sozinha. Foi com meu próprio grito que eu notei a força que eu tinha e o que eu havia acabado de fazer…

Um assaltante. Ele me abordou pedindo dinheiro, tinha uma faca pequena nas mãos. Eu disse que não tinha nada e ele tentou me agarrar, com o susto eu dei um tapa na sua mão que fez com que a faca fosse longe e com a outra mão acertei um soco na sua boca. Eu nunca tinha dado um soco na minha vida mas acho que aprendi só de observar. Ele ficou meio tonto mesmo assim eu não parei, depois do soco na boca, eu acertei outro no seu estômago e ele caiu no chão. Comecei a chutar sua barriga e a sua cara. Em pouco segundos ele estava cheio de sangue e mesmo assim eu não conseguia parar. Com uma certa dificuldade eu o levantei do chão e segurei seu pescoço por trás jogando sua cabeça contra uma parede próxima. Antes que ele caísse de novo eu o agarrei e ia fazer o mesmo movimento até que meu amigo me abraçou por trás imobilizando meus braços. Eu estava ofegante e cheguei a babar, todo o ódio que estava em mim novamente veio a tona. O cara agora estava no chão gemendo de dor e todas as pessoas me olhavam em volta assustados. Meu amigo me arrastou pra longe dali e depois de andarmos um pouco, desta vez ele me segurando pelo braço, chegamos a um casebre velho onde entramos.

Parecia que foi abandonado a muito tempo, muitas coisas sujas e pó. Ele me sentou num sofá e disse: “Não saia daí!”, e saiu. Eu realmente fiquei lá, ainda estava agitada com o evento e não sabia muito bem o que havia acontecido comigo, mas sabia que já havia sentido aquilo antes. Ele demorou pra voltar, tanto que eu não vi que horas ele chegou pois acabei dormindo onde eu estava. Acordei com ele tentando me fazer comer alguma coisa.

– O que é isso?

– Come logo.

– O que aconteceu?

– Você quase matou um cara e dormiu.

– Ah sim, acho que me lembro… Onde você roubou essas coisas?

Talvez eu tenha dito de uma forma grosseira ou ele que não gosta de brincadeiras, em todo caso ele me olhou muito feio quando eu disse essas palavras e respondeu seco:

– Comprei.

– Com que dinheiro?

– Com o dinheiro que estavam me devendo. Vai comer ou não?

– Se eu escolher o não?

– Eu te obrigo a comer e vou pouco me importar se você engasgar.

– Ok, eu como sozinha.

Ficamos ali um bom tempo apenas comendo e olhando pra cara um do outro sem trocar uma palavra. Como começou a anoitecer ele acendeu uma vela e depois de um longo silêncio disse:

– Nada mal pra uma primeira…

– Não foi primeira.

Agora eu estava com a cabeça baixa, observando minhas unhas.

– Não? Foi por algo do gênero que você foi parar no sanatório?

– É, pode ser…

– Ei… – ele agora estava na minha frente e passou a mão no meu rosto para que eu olhasse pra ele. Segurou levemente porém firme no meu queixo para que eu não desviasse o olhar. – Confia em mim. Só temos um ao outro agora, e você me deve!

– Te devo?

– Você sabe da minha vida e se você não tivesse surtado eu já estava bem longe. Agora vai, fala logo.

– Tudo bem…

A verdade é que eu quase matei meu irmão. Não era algo que eu queria, mas quase aconteceu. Vivíamos brigando, justamente por minha mãe sempre dar mais privilégios a ele. O único que me dava mais atenção era meu pai, então um dia eu estava no meu jardim com algumas amigas e meu irmão apareceu me xingando dizendo que eu era uma inútil. Educadamente eu pedi para que minhas amigas voltasse outra hora, e assim que elas foram embora, educadamente fiz meu irmão tropeçar na escada e bater a cabeça no degrau. Foi um leve puxão na sua perna que vez abrir um corte enorme na testa. Na hora eu fiquei em choque, não era eu que tinha feito aquilo, eu mesma não podia acreditar, no entanto, meu irmão viu meu estado e fez um drama enorme, o modo como ele falava dizendo que eu havia tentado matar ele me fez ficar com cada vez mais raiva. Minha mãe na hora me fez várias acusações e não quis me ouvir. Eu repetia desesperadamente que tinha sido um acidente  mas não adiantou, com toda essa pressão eu explodi, e me lembro de gritar: Eu não tentei, mas agora eu vou tentar pra vocês terem razão. Não lembro de muita coisa, mas meu pai me conta que eu joguei a cabeça do meu irmão contra a parede da cozinha, manchando o azulejo de sangue e quando eu o derrubei eu pisava em sua barriga e pescoço. Eu também empurrei minha mãe quando ela tinha tentado me afastar e ela caiu na sala, por sorte não se machucou. No ápice da agressão eu parei e desmaiei. Acho que parte da minha mente percebeu que tinha algo errado e me desligou. Quando eu acordei eu estava no sanatório e desde então tem sido a minha vida. Não sei como está meu irmão exatamente, mas acredito que muito bem, tava até viajando.

Eu comecei a chorar quando terminei de contar. Ele não disse nada, apenas levantou e pegou uma cerveja que estava num isopor, foi até a janela e ficou lá olhando a rua escura.

– Qual o seu nome?

– Oi?

– Seu nome. Nós fugimos, você me ajudou e me trouxe pra cá mas eu não sei seu nome.

– Precisa?

– Acho que eu preciso, ou quem eu vou chamar no meio da multidão se um dia a gente se perder? Ei você? Não é bonito…

– Acho justo. Miguel.

– O meu é Laura.

Ficamos um tempo olhando um pro outro e então eu levantei para dar uma volta pela casa. Quando cheguei na janela percebi que reconhecia o lugar.

– Minha casa!

– O que?

– Ali, é a minha casa!

– Que merda hein…

– Merda nada! Vamos lá!

– Fazer o que lá, tá louca? Seus pais acham que você tá no sanatório, ou não a essa hora pode ser que tenham sentido falta da gente…

– Eles não estão em casa…

– Como você sabe?

– Ora, meu irmão chegou de viagem, com certeza eles foram jantar fora e deixaram a única luz do corredor acessa como sempre fazem… Eu só preciso ir lá, pegar as minhas coisas e ir embora…

– Ta bom, vai… – disse Miguel sentando no sofá. – Eu espero aqui.

Eu fui, e como previsto não havia ninguém em casa, entrei pela porta da cozinha e vi um pouco da mancha vermelha que ficou no azulejo como meu pai tinha dito. Estava mais pra rosada e pequena mas ainda estava lá. Subi para meu quarto mas não havia nada lá, apenas as tranqueiras do meu irmão. Desci para o quartinho pensando que talvez tivessem jogado minhas coisas fora, mas lá encontrei tudo no lugar, era como se meu quarto tivesse ido pra lá. Não havia tempo pra sentimentalismo, então peguei uma bolsa, coloquei umas roupas, cadernos, canetas e mais algumas coisas. Fui embora correndo, sabia que quanto mais eu ficasse naquele lugar seria pior. Ao voltar para o casebre Miguel não estava lá. O que poderia ter acontecido? Ele simplesmente foi embora e me deixou? Me ajoelhei no chão e comecei a chorar porém não era bem por ele ter ido embora mas sim por tudo que tinha acontecido até ali. Eu poderia ter ficado ali chorando até o amanhecer se um barulho vindo do lado de fora não tivesse me chamado a atenção.

/juhliana_lopes 19-03-2013

Insanidade – Explosão e controle

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Passaram-se alguns dias, e então chegou o dia da grande festa!

A Grande Festa, era um evento anual onde o sanatório abria as portas para os familiares dos internos com uma festa onde aproveitavam para vender algumas coisas nas barraquinhas, e os “doidos mais sãos” ajudavam a organizar. Era uma ótima oportunidade para as famílias “lembrarem” de seus filhos, irmãos ou outros parentes que estavam esquecidos por lá. Todos podiam participar, inclusive os considerados “perigosos”, haviam muitos enfermeiros de plantão prontos para agir ao menor sinal de problema. Por algum motivo raramente acontecia algum problema, a festa parecia realmente acalmar os ânimos de todo mundo.

Era o momento onde os internos podiam interagir entre si, mulheres e homens misturados, curtindo a festa, rolava até umas paqueras nesse meio tempo. Era bom saber que não se está sozinho naquele ambiente podre. O tema desse ano era festa a fantasia e eu havia ganhado (na verdade era o que havia sobrado pra mim) um vestido de época, tinha até espartilho e aquelas frescuras todas. Com a ajuda de algumas internas e de Débora que fez questão de deixar meu decote bem visível, me vesti e fui para o pátio. Andei um pouco, a música era boa. O ar parecia mais puro, a brisa me fazia me sentir leve. Fui para o campo de banho de sol e vi a árvore da minha última aventura. Imaginei se ele iria querer sair do quarto para a festa. Por que não lhe fazer uma visita? Podia ser que eu conseguisse acesso ao quarto dele de novo… Quando estava a caminho dos quartos ouvi uma voz familiar. Meus pais.

Senti o abraço de minha mãe e por um momento pensei que estava acordando de um pesadelo e voltado para casa, mas a verdade que apenas eu senti o calor do abraço. Meu pai também me abraçou e passou a mão no meu rosto. Me perguntaram como eu estava e eu respondi apenas: “Bem”. Eles não se preocuparam muito em saber mais, disseram que já tinham que ir embora porque meu irmão estava viajando e voltava hoje. Perguntei quando que ele havia viajado e minha mãe respondeu que semana passada. A decepção me veio aos olhos em forma de lágrimas, que logo se tornaram gotas de ódio. Apenas disse: “Vocês me visitam apenas uma vez por ano e suas visitas não duram mais do que 30 segundos. Ele claro, merece mais atenção apesar de viver o tempo todo em casa. Podem ir, mas não precisam voltar ano que vem.” Eles não prestaram atenção no que eu falei e foram embora.

O dia estava ótimo até aquele momento. Me senti destruída, sem chão. Voltei para a árvore. Fiquei ali olhando pra ela, pensando em tudo que tinha acontecido comigo, e em como eu me sentia agora. De repente era como se eu tivesse vendo a minha mãe no lugar da árvore. As gotas de ódio voltaram e eu explodi. Gritava como se realmente estivesse discutindo com ela: “Você nunca me amou! Ele sempre foi o preferido! Por que não pode mostrar o mínimo de afeto por mim? Por que não pode me aceitar como eu sou?” Comecei a bater na árvore, como as inúmeras vezes que eu batia na porta do meu quarto quando minha mãe me trancava. Eu chorava compulsivamente, e em um momento eu me desequilibrei por causa do vestido e cai. Me sentia fraca, sem a menor vontade de levantar. Fiquei por ali e dormi.

Quando acordei estava num quarto, mas estava iluminado demais pra ser o meu. Quando me sentei na cama e olhei ao redor percebi que já estive ali. Quando eu ia chamar por alguém, ele entrou no quarto. Carregava uma bandeja com alguns doces e salgados e refrigerante. Colocou na cama e sentou de frente pra mim.

“Você está bem?” Ele tinha um ar preocupado. Eu respondi que sim, então ele explicou que me viu com meus pais. Viu quando eu briguei com a árvore e viu quando eu dormi. Então ele me pegou e me trouxe pro quarto, enquanto os enfermeiros se ocupavam em jogar cantadas em cima das irmãs de alguns internos.

Agradeci a gentileza e ficamos ali conversando. Ele me perguntou como que eu havia parado ali, mas eu disse que não estava bem para falar sobre aquilo naquele momento. Ele respeitou e me entregou um desenho. Era a árvore e nós dois perto dela, rindo. Os corpos lógico não tinham muita definição, eram como duas sombras, mas pela forma era claro que éramos nós dois. Eu estava tão anestesiada com todas as emoções em curto prazo que eu havia sentido que não havia reparado na fantasia dele. Também parecia uma roupa de época, pois o terno tinha um corte diferente. Ele me perguntou se eu estava bem novamente e perguntou se podíamos ir para fora. Respondi que sim e então quando saímos foi a vez dele encontrar familiares, porém não eram os dele. Era uma mãe de uma das pessoas que ele havia matado no banco com as redes. Ela chegou furiosa insultando-o e dizendo que ele havia estragado a sua vida. Ele não respondeu nada, ficou parado. Ela continuava o insultando e chegando mais perto, até que ela lhe deu um tapa na cara. Pensei que ele iria fazer algo com ela, mas ele permaneceu parado. Alguns enfermeiros que viram a cena se aproximaram e tiraram a mulher de perto. Ele pegou a minha mão e seguimos até a árvore.

Sentamos e ficamos um bom tempo sem trocar uma palavra. Mesmo com um certo receio perguntei: “Por que você não disse nada?” Ele me olhou por um tempo e depois olhou para o chão, e respondeu: “Que culpa ela tem? Eu matei o filho dela. Não era algo que eu queria mas eu matei, e senti até um certo prazer na hora. O prazer foi meu e a dor foi dela, ela só estava tentando desabafar isso, me mostrar seu sofrimento, normal.” Permaneci em silêncio, pensando em suas palavras. Perdida em meus pensamentos ouvi um som. Quando levantei a cabeça vi quando um enfermeiro levava uma das irmãs de algum interno para um canto. Meu amigo também viu e se levantou rapidamente. Com um pouco de dificuldade eu levantei também e olhei pra ele, que falou: Vá no seu quarto, troque de roupa e me espere perto da porta do meu quarto, rápido.

Não sabia exatamente o que ele tinha em mente mas fiz o que ele pediu. O medo percorria meu corpo, eu estava sozinha no corredor da ala dos homens, se algum outro interno me visse ali e tentasse algo? Com o que eu iria me defender? Então ele apareceu com dois jalecos de enfermeiro. Falou para eu vestir enquanto ele vestia um também. Saímos como se nada estivesse acontecendo em direção ao portão. Ele me contou que aquele enfermeiro que estava com a menina nos fundos era quem estava responsável pela portaria que agora estava vazia. Saímos parecendo o mais natural possível até que um casal nos abordou, por sorte eles só queriam saber se a festa ainda estava acontecendo então indicamos o portão e eles seguiram seu caminho.

Estávamos livres e tudo tinha sido tão natural que eu mal podia acreditar. Andamos muito, o mais longe possível, porém tentando não chamar a atenção. Quando chegamos a uma distância razoavelmente boa nos livramos dos jalecos. Perguntei pra onde iríamos e ele não me respondeu. Ao chegarmos numa estação de trem, ele entrou. Puxei seu braço perguntando o que ele estava fazendo, não tínhamos como pegar um trem. Ele então me disse que tinha um dinheiro guardado que ele ganhou dos enfermeiros quando estes alugavam seu quarto como motel pra pegar as internas em pior situação. Ele comprou os bilhetes e embarcamos. Conseguimos ir para bem longe, até chegamos num lugar com bastante movimento. Saímos da estação, ele pegou a minha mão e me falou: “Bem, agora cada um vai pra um lado, você consegue se virar sozinha…” Não respondi. Aquelas palavras iam e voltavam em minha mente como martelo. Não conseguia acreditar. Ele soltou minhas mãos ao ver meu estado e começou a caminhar. Eu fiquei ali parada no meio da rua.

Foi com meu grito que ele se virou e percebeu que não podia me deixar sozinha. Foi com meu próprio grito que eu notei a força que eu tinha e o que eu havia acabado de fazer…

/juhliana_lopes 11-03-2013

Insanidade

Árvore_do_jardim_(2)

Esta história pode ficar confusa e fora de ordem, mas é assim que os fatos me vem a cabeça, confusos e fora de ordem, então se você for um pouco louco como eu, irá entender perfeitamente.

Não sei exatamente há quanto tempo estou nessa vida, mas o motivo é claro: meus pais. Se eles me vissem agora de certo não me reconheceriam mas, pelo menos não iam me mandar pro quarto da forma como eles mandavam. Sinto falta dos abraços da minha mãe, das brincadeiras com meu pai… Se eu pudesse escolher, seria criança pra sempre…

Como não há escolha, ainda mais no rumo que eu tomei, o melhor a se fazer é seguir em frente mesmo e torcer pra nenhuma merda acontecer. Claro que seria mais difícil se eu estivesse sozinha, mas eu tenho ele… Ele foi a melhor pessoa que eu poderia ter encontrado nesse caminho, e apesar de tudo é a única pessoa em que eu posso confiar…

O que fazemos? Matamos. Um casal psicopata. Acho que já tava bem claro… Nos conhecemos quando estávamos no sanatório. Pode parecer estranho mas foi a única forma de não enlouquecer naquele lugar.

Naquele dia eu tinha brigado com uma das internas. Eu odiava que tocassem no meu cabelo e ela insistiu mesmo assim, acertei um soco na boca que acabou rasgando por dentro por causa dos dentes. Alguns enfermeiros estavam cheios do seu trabalho, então colocavam uma ou duas internas na ala masculina como castigo, depois diziam que nós mesmas tínhamos ido pra lá e não tiveram como evitar o estupro a tempo. As meninas não iam lá, sabiam que era perigoso… Só a Débora mas, ela era ninfomaníaca então era isso que ela tava procurando mesmo.

No mesmo dia, um novo homem foi transferido para a ala masculina. O enfermeiro fez questão de me contar os “dotes” dele. Havia sido preso por matar algumas pessoas em um banco num surto. Ele vendia redes na rua e quase todas as pessoas foram encontradas com as redes enroladas no pescoço, tinha uma que ele tinha matado a facadas mesmo. Ele odiava que as pessoas olhassem pra ele, principalmente nos seus olhos, isso fazia com que ele ficasse mais violento.

Sem muita cerimônia ele abriu a porta do quarto do tal assassino e me jogou lá dentro e trancou a porta. Eu estava assustada, tentei não olhar pra nada e segui direto para o canto da parede. Fiquei com a cabeça abaixada, abraçada aos meus joelhos, quase em posição fetal. O silêncio devorava a minha mente e eu pensava em mil coisas ao mesmo tempo. Comecei a tremer e tentava olhar fixamente para a parede. Comecei a pensar que podia ser um blefe do enfermeiro, que na verdade não havia ninguém na sala e eu estava com medo a toa. Podia ser que fosse só um gato ou um cachorro na sala. Eu tentava me acalmar pois meu coração já estava querendo sair pela boca. Depois de muito pensar em diversas possibilidade, levantei a cabeça e olhei pro lado.

Eu nunca senti um susto tão grande na minha vida, minha cabeça ficou doendo por horas depois que eu bati com ela na parede no impulso de me afastar. Seus olhos cor de mel, seu rosto, estava tão próximo do meu, apenas esperando que eu me virasse. Por um momento eu quase entrei na parede pra tentar escapar, eu parecia um bicho acuado. Ele por sua vez mantinha uma calma irritante, apenas me olhando, era difícil para meus olhos atordoados não encontrarem os dele. Quando, depois de um longo tempo, ele levantou a mão, abaixei a cabeça e coloquei os braços sobre o rosto pensando que ele ia me bater. Na verdade ele tirou meu braços da frente delicadamente e com um toque suave tirou o cabelo do meu rosto colocando atrás da minha orelha. Depois disso ele levantou e se sentou em outro canto e começou a rabiscar em um papel.

O medo, a desconfiança me paralisavam e ficamos assim um bom tempo, eu num canto e ele no outro. Quando ele olhava pra mim eu desviava o olhar, mas não conseguia parar de olhar pra ele com curiosidade sobre o que estava fazendo. Até que ele disse, de onde estava: “Dá pra ficar quieta e olhar pra cá?” Eu gelei. Sua voz forte invadia meus ouvidos e o medo se tornava mais forte. Até que ele largou o lápis e se levantou, pegou uma fita adesiva que tinha do outro lado do quarto e pendurou o papel na parede. Então ele veio até mim que novamente me encolhi o máximo que pude. Ele estendeu a mão para que eu levantasse, porém meu medo era tanto que eu ignorei o gesto. Ele bufou e pegou nos meus braços me obrigando a levantar e me levou até próximo do papel.

Era um desenho lindo, sombreado com detalhes de uma técnica que deixava o desenho suave e sombrio. Observando bem, era eu desenhada, sentada no canto da parede. Fique ali pensando naquele desenho quando fui surpreendida por um beijo na bochecha e um “relaxa, senta ai”. Sentei na cama dele e ele começou a puxar conversa.

Aos poucos, depois de algumas piadinhas idiotas sobre o estado do meu cabelo e cantadas baratas, ele me fez rir e conversamos por um bom tempo. Ele me contou sobre o surto e como tinha sido difícil o relacionamento dele com o irmão depois que os pais morreram. Que ele fugiu pra viver sozinho e desde então tinha alguns ataques mas nunca tinha matado ninguém, só ferido gravemente. O último o levou pra prisão e com a ajuda de uma psicóloga ele conseguiu ficar ali no sanatório. Me disse que além de desenhar ele gostava de escrever e era as únicas coisas que ele fazia ali desde então.

Os enfermeiros bem que estranharam a ausência de gritos e vieram ver o que estava acontecendo. Ao abrirem a porta, viram que eu estava sentada na cama e ele com um papel na mão lendo, um texto curto que eu havia feito por insistência dele. Eles espumavam pela boca por perceber que eu não tinha recebido o meu “castigo merecido”. Me puxaram pelos cabelos e me prensaram contra a parede me deixando de costas pra ele. Gritaram: “E ai, você não vai fazer nada seu merda?” O rapaz olhou pra eles e pra mim naquele estado, e respondeu com um sonoro “Sim”. Quando dei por mim um enfermeiro já estava no chão com a mão na boca e o outro estava levando socos rápidos no estômago. Ele também foi ao chão, mas o outro se levantou e estava dando uma chave de braço no rapaz. Eu tinha que ajudar de alguma forma, então com um impulso chutei a suas costas fazendo perder o equilíbrio e soltar o rapaz. Ele se virou pra mim e eu acertei com um chute no saco. Ele caiu no chão e eu subi sobre ele apertando seu pescoço. Acho que estava em surto pois me lembrei de um momento muito semelhante do meu passado. Quando eu comecei a sentir os primeiros espasmos, o assassino do quarto me puxou e me fez correr pro corredor. Corremos juntos e saímos no campo onde alguns internos tinham o direito de tomar sol, naquela hora não havia ninguém lá fora. Depois de muito correr paramos perto de uma árvore. Os dois ofegantes, cansados, de repente risadas. Nunca rimos tanto, parecíamos duas crianças. A adrenalina ainda nos fazia tremer mas o que fizemos estava mais para uma brincadeira de criança do que para uma insanidade completa…. Logo outros enfermeiros nos acharam e nos arrastaram pra dentro. Ríamos muito e eu fui levada novamente para meu quarto com as outras meninas. Pra minha felicidade não ia ser a última vez que íamos nos ver…

/juhliana_lopes 08-03-2013