Mais um louco

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Sempre me chamaram de louca por querer trabalhar com loucos. Ora, não é porque são loucos que não precisem de ajuda… Meu trabalho consistia apenas em ouvi-los. Eu sentava perto deles, conversava e ouvia todas as suas angústias e devaneios. Eles sentiam uma confiança tão grande em mim, que minha fama se espalhou.

Quando houve aquele caso do assassinato, me indicaram para ouvir o assassino. Disseram que precisavam saber se ele era louco ou fez aquilo por vontade própria. Ele se recusava a ouvir a todos e era extremamente agressivo quando alguém tentava. Colocaram no sanatório um tempo, e o assédio dos médicos era tão grande que a situação só piorava. Fui fazer uma visita. O terror de todos era visível e eu soube o porquê quando entrei. Havia um psiquiatra com ele na sala, e quando eu cheguei havia outros médicos tentando evitar a sua morte. O assassino havia se irritado com a presença persistente dele e estava sufocando-o contra a parede. Muitos pareciam baratas tontas e não sabiam como reagir. Eu já havia ouvido casos assim, e agi por instinto.

Entrei na sala e disse:

– Larga!

Todos me olharam na mesma hora, inclusive o assassino. Ele largou, olhou em volta e sentou-se num canto olhando pra parede. O psiquiatra recuperava o ar e tentava dizer algo sobre denúncias. Os médicos o retiraram da sala e tentaram me tirar também. Com a mesma autoridade de quando eu entre, eu respondi:

– Me solta.

Os médicos não ousaram dizer nada. Deixaram-me sozinha com o assassino, e como se quisessem testa a situação, trancaram a porta por fora. Quando deixei a bolsa em um canto da sala, vi quando ele me olhou rápido e deu um sorriso de canto de boca. Sentei ao seu lado e perguntei:

– O que aconteceu?

– Nada.

– O que aconteceu?

– Já disse moça. Nada.

– O que aconteceu?

– Nada…

– O que aconteceu? – eu disse mais uma vez. Todas às vezes, serena e calmamente o bastante para irritar qualquer um… Percebi que estava dando certo, porque desta vez ele olhou em meus olhos e disse pausadamente enquanto cerrava o punho.

– Na – da.

– O que aconteceu?

– EU JÁ DISSE, NÃO FOI NADA! – ele gritou, socando a parede próxima ao meu rosto. Na verdade nossos rostos ficaram bem perto um do outro. Seu olhar era de um bicho acuado e a respiração era forte. Arrumei meu cabelo, colocando atrás da orelha e dei um sorriso meio sem graça, desviando levemente o rosto. Ele notando a situação, também ficou sem graça. Recolheu o braço e pediu desculpas.

– Agora me conta. O que aconteceu com você? E se você disser nada de novo, quem vai socar a parede sou eu…

Ele riu. Acho que há muito tempo não fazia isso. Não era um riso escandaloso, mas lembrava duma criança feliz, só que versão adulta.

– Não disseram a você?

– Disseram. Mas quero ouvir o que fizeram com você e não o que você fez ou deixou de fazer…

Um pouco surpreso ele respondeu:

– Me bateram um pouco na cadeia. Os policiais. Os outros presos tinham medo de mim. No começo tentaram me intimidar, outros fazer amizade. Mas quando viram que os guardas me pegavam toda hora para interrogatórios e eu voltava mancando, perceberam que eu tinha feito algo grave. Foi um gordo que perguntou o que eu fiz e eu disse que tinha matado alguém…

– E como foi à reação deles?

– Desacreditaram lógico. Muitos ali haviam matado e ninguém ficava indo ter “conversinhas” toda hora. Foi quando eu disse como eu matei que eles me deixaram quieto.

– E como foi essa morte? Quero saber de você, porque eu sei que eles lá fora, distorcem tudo…

– Bem… Não era ninguém importante. Uma senhora devia ter uns 50… Ela não tinha feito nada sabe… Já ouviu aquela de “estar no lugar errado, na hora errada?” então… Foi o que aconteceu com ela… Eu não estava num dia bom…

– E por que seu dia não estava bom?

– Ah… Minha mulher… Queria se separar. Acho que a essa altura ela já deve ter conseguido os papéis e ido pra outro país. Eu não queria sabe… Achava que ainda podíamos dar um jeito. Eu gostava dela… A única coisa que me incomodava era a futilidade dela… Mas ainda sim, era uma ótima esposa…

– Naquele dia vocês tinham brigado?

– Sim. Então eu saí pra esfriar a cabeça. A senhora, a que eu matei, passou por mim. Ela estava com um bolinho de papel na mão. Ofereceu-me um eu não aceitei… Depois nos encontramos de novo e ela tornou a me oferecer… Ai eu explodi.

– E o que aconteceu?

– Eu tomei o bolo de papel da mão dela, segurei seu pescoço e enfiei o bolo na garganta dela. Essa parte foi fácil… Ela começou a engasgar e a ficar roxa. Eu pensei em tirar os papéis… Ajudá-la sabe… Ela não tinha culpa pela minha vida estar uma droga. Mas ai eu olhei em volta e vi que muita gente já tinha visto e estava com cara de “nossa, olha o que ele fez…”. Resolvi terminar o que comecei, já estava tudo na merda mesmo… Segurei os ombros dela e esperei um caminhão passar. Naquele pedaço passavam muitos caminhões. Quando um passou, joguei-a, que estrategicamente caiu onde o eixo ia passar. Ai foi pedaço de “senhora” pra todo lado…

– Entendo. Ai eles te levaram?

– Sim. Na hora do papel, alguém já tinha ligado pra policia certamente. Quando viram os pedaços, nem perderam tempo. Eu também não ofereci resistência… Sabia que estava ferrado mesmo…

– Eles te machucaram muito?

– Nas “conversinhas” eles bem que tentavam. Mas desde criança eu tenho uma resistência natural a ferimentos. Posso me cortar, levar pancada… Dói na hora e depois passa. Até pra cicatrizar é mais rápido do que normalmente deveria ser.

– E o que você pretende agora?

– Eu sei que vou apodrecer na cadeia, mas ainda posso tentar ficar aqui. Sinceramente não sei onde é pior. Na cadeia corro o risco de morrer por causa dos policiais. Aqui posso acabar ficando louco junto com os outros… Entre a minha sanidade e a minha vida, ainda não sei qual escolher…

– Acho que você é inteligente o bastante para manter-se são.

– Talvez… Mas e você?

juhliana_lopes 23-01-2012

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