Mais um louco – A despedida

janela

Fiquei surpresa, a verdade é que nas conversas que tive com todos os meus pacientes, nunca ninguém havia perguntando algo sobre mim.

– Ah… Eu estou bem…

– Mesmo? Seu olho tá meio inchado… Andou chorando?

– Sim… Mas não é nada importante…

– Fala…

– Tudo bem, vai… Também estou passando por uma separação… Meu marido não concorda com a minha profissão, acha que posso trazer perigo a nossa filha. Já faz um tempo que eu parei, justamente pra cuidar dela quando começou os ataques de asmas…

– E mesmo assim seu marido acha que você oferece perigo? Eu não tive filhos, mas se eu tivesse e minha esposa largasse o emprego pra cuidar da nossa filha eu iria ficar bem mais aliviado do que deixar ela na mão de uma babá… E asma sempre é um problema…

– Pois é… Mas voltando a você, vou ver o que posso fazer. Mas preciso saber você prefere a cadeia ou aqui?

– Aqui. Pelo menos terei paz.

– Certo. Fica bem, eu volto pra te visitar algum dia…

– Obrigado. E obrigado por me ouvir…

– Não há de quê. Obrigada também por perguntar… Ninguém nunca faz isso…

– Então estamos empatados. – Ele sorriu e me acompanhou até a porta. Bati e os médicos abriram. Ele me olhou uma ultima vez e voltou a se sentar no cantinho. Eu fui falar com os policiais.

Conversei com o delegado, com os policiais, com todos que eram possíveis. Ele ficaria no sanatório a contragosto dos familiares da senhora.

Naquela mesma noite, curiosamente o sanatório foi incendiado, e as investigações posteriores mostraram que foi causado por um grupo de policiais pelo lado de fora.

Alguns loucos sumiram, outros foram salvos e pelo menos três tiveram o corpo carbonizado.

Naquela noite, meu marido estava saindo de casa e eu chorando na sala, sem saber o que fazer. Tentei dormir, mas não conseguia… Desci para beber água, e ouvi uns barulhos estranhos. Ignorei e voltei pro quarto. Quando eu estava quase pegando no sono, corri para o quarto de minha filha.

– Oi mamãe!

– Mas… Você… Como?

– Oi, eu achei que uma visita seria adequado…

– Senta mamãe, ele está contando uma história…

Minha filha estava sentada na cama e ele num banquinho de frente pra ela, com um livro da coleção dela. Minha filha sempre tentava fazer o pai dela ler pra ela, mas ele “nunca tinha tempo”… Sentei do outro lado da cama e quando ele terminou de ler (coisa que fazia muito bem para criança, gesticulando, e fazendo caras e bocas quando falava dos personagens e suas reações), minha filha havia caído no sono.

Levei até a cozinha e conversamos.

– O que aconteceu no sanatório?

– Pegou fogo.

– Mas…

– Não fui eu. Veio de fora. Uns caras morreram, então coloquei a minha roupa num deles, e sai. Alguns fugiram e eu aproveitei a oportunidade.

– O que pretende fazer agora?

– Não sei. Vou ter que ficar um tempo escondido. Vou tentar ir pra outra cidade, até mesmo outro estado. Tentar refazer a minha vida.

– Entendo. Como você entrou aqui?

– A janela estava aberta. Pensei que era seu quarto. Quando entrei, a menina acordou com um livro na mão, dizendo: lê pra mim papai… Respondi que não era o pai dela, que era seu amigo e estava fazendo uma visita. Ela não ligou muito e pediu pra eu ler. Ela gosta dos livros né?

– Sim. Sempre que posso eu leio. Mas o pai dela… Ele foi embora hoje…

– Entendo. Você vai ficar bem?

– Vou sim.

– Então eu posso ir mais tranquilo.

– Qual seu nome? Nós conversamos tanto e eu não sei seu nome… Se bem que agora isto não vai importar muito…

– É Henrique. Mas se quiser me procurar pra conversar, vou me chamar Fernando. Era o nome do meu irmão. Provavelmente estarei na cidade vizinha, aquela que ninguém vai, trabalhando em algum mecânico.

– Certo. Meu nome é Amanda. Eu não vou mudar de casa. Pode me visitar quando quiser. O nome da minha filha é Alice.

– Bonito nome. E ela também é linda. Deve ter puxado a mãe…

Continuamos conversando e tomando café. Já estava amanhecendo quando ele foi embora. Naquele mesmo dia fiquei sabendo da morte do “Henrique” e de mais dois internados do sanatório. Passei a ficar em casa com minha filha e quando ela estava na escola, eu dava aulas particulares de piano. Logo precisaria de alguém para ficar com ela e trabalhar para sustentar a casa. A vida aos poucos voltava ao normal para mim. Pergunto-me às vezes se para “Fernando” também. Faz tempo que não o vejo, mas minha filha me conta que ele a visita às vezes para lhe contar histórias e juntos os dois me observam dormindo. Sei que não é sonho dela, porque além trazer bichinhos e bonecas, ele sempre deixa uma rosa num copo com água em cima da mesa da cozinha.

Não acho que estou louca. Não acho que os loucos são “loucos”. São apenas pessoas que precisam de atenção. São apenas pessoas que precisam de alguém que lhes pergunte: “O que aconteceu? Diga-me, você está bem?”. Falando nisso, você, está bem?

/juhliana_lopes 29-01-2013

Mais um louco

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Sempre me chamaram de louca por querer trabalhar com loucos. Ora, não é porque são loucos que não precisem de ajuda… Meu trabalho consistia apenas em ouvi-los. Eu sentava perto deles, conversava e ouvia todas as suas angústias e devaneios. Eles sentiam uma confiança tão grande em mim, que minha fama se espalhou.

Quando houve aquele caso do assassinato, me indicaram para ouvir o assassino. Disseram que precisavam saber se ele era louco ou fez aquilo por vontade própria. Ele se recusava a ouvir a todos e era extremamente agressivo quando alguém tentava. Colocaram no sanatório um tempo, e o assédio dos médicos era tão grande que a situação só piorava. Fui fazer uma visita. O terror de todos era visível e eu soube o porquê quando entrei. Havia um psiquiatra com ele na sala, e quando eu cheguei havia outros médicos tentando evitar a sua morte. O assassino havia se irritado com a presença persistente dele e estava sufocando-o contra a parede. Muitos pareciam baratas tontas e não sabiam como reagir. Eu já havia ouvido casos assim, e agi por instinto.

Entrei na sala e disse:

– Larga!

Todos me olharam na mesma hora, inclusive o assassino. Ele largou, olhou em volta e sentou-se num canto olhando pra parede. O psiquiatra recuperava o ar e tentava dizer algo sobre denúncias. Os médicos o retiraram da sala e tentaram me tirar também. Com a mesma autoridade de quando eu entre, eu respondi:

– Me solta.

Os médicos não ousaram dizer nada. Deixaram-me sozinha com o assassino, e como se quisessem testa a situação, trancaram a porta por fora. Quando deixei a bolsa em um canto da sala, vi quando ele me olhou rápido e deu um sorriso de canto de boca. Sentei ao seu lado e perguntei:

– O que aconteceu?

– Nada.

– O que aconteceu?

– Já disse moça. Nada.

– O que aconteceu?

– Nada…

– O que aconteceu? – eu disse mais uma vez. Todas às vezes, serena e calmamente o bastante para irritar qualquer um… Percebi que estava dando certo, porque desta vez ele olhou em meus olhos e disse pausadamente enquanto cerrava o punho.

– Na – da.

– O que aconteceu?

– EU JÁ DISSE, NÃO FOI NADA! – ele gritou, socando a parede próxima ao meu rosto. Na verdade nossos rostos ficaram bem perto um do outro. Seu olhar era de um bicho acuado e a respiração era forte. Arrumei meu cabelo, colocando atrás da orelha e dei um sorriso meio sem graça, desviando levemente o rosto. Ele notando a situação, também ficou sem graça. Recolheu o braço e pediu desculpas.

– Agora me conta. O que aconteceu com você? E se você disser nada de novo, quem vai socar a parede sou eu…

Ele riu. Acho que há muito tempo não fazia isso. Não era um riso escandaloso, mas lembrava duma criança feliz, só que versão adulta.

– Não disseram a você?

– Disseram. Mas quero ouvir o que fizeram com você e não o que você fez ou deixou de fazer…

Um pouco surpreso ele respondeu:

– Me bateram um pouco na cadeia. Os policiais. Os outros presos tinham medo de mim. No começo tentaram me intimidar, outros fazer amizade. Mas quando viram que os guardas me pegavam toda hora para interrogatórios e eu voltava mancando, perceberam que eu tinha feito algo grave. Foi um gordo que perguntou o que eu fiz e eu disse que tinha matado alguém…

– E como foi à reação deles?

– Desacreditaram lógico. Muitos ali haviam matado e ninguém ficava indo ter “conversinhas” toda hora. Foi quando eu disse como eu matei que eles me deixaram quieto.

– E como foi essa morte? Quero saber de você, porque eu sei que eles lá fora, distorcem tudo…

– Bem… Não era ninguém importante. Uma senhora devia ter uns 50… Ela não tinha feito nada sabe… Já ouviu aquela de “estar no lugar errado, na hora errada?” então… Foi o que aconteceu com ela… Eu não estava num dia bom…

– E por que seu dia não estava bom?

– Ah… Minha mulher… Queria se separar. Acho que a essa altura ela já deve ter conseguido os papéis e ido pra outro país. Eu não queria sabe… Achava que ainda podíamos dar um jeito. Eu gostava dela… A única coisa que me incomodava era a futilidade dela… Mas ainda sim, era uma ótima esposa…

– Naquele dia vocês tinham brigado?

– Sim. Então eu saí pra esfriar a cabeça. A senhora, a que eu matei, passou por mim. Ela estava com um bolinho de papel na mão. Ofereceu-me um eu não aceitei… Depois nos encontramos de novo e ela tornou a me oferecer… Ai eu explodi.

– E o que aconteceu?

– Eu tomei o bolo de papel da mão dela, segurei seu pescoço e enfiei o bolo na garganta dela. Essa parte foi fácil… Ela começou a engasgar e a ficar roxa. Eu pensei em tirar os papéis… Ajudá-la sabe… Ela não tinha culpa pela minha vida estar uma droga. Mas ai eu olhei em volta e vi que muita gente já tinha visto e estava com cara de “nossa, olha o que ele fez…”. Resolvi terminar o que comecei, já estava tudo na merda mesmo… Segurei os ombros dela e esperei um caminhão passar. Naquele pedaço passavam muitos caminhões. Quando um passou, joguei-a, que estrategicamente caiu onde o eixo ia passar. Ai foi pedaço de “senhora” pra todo lado…

– Entendo. Ai eles te levaram?

– Sim. Na hora do papel, alguém já tinha ligado pra policia certamente. Quando viram os pedaços, nem perderam tempo. Eu também não ofereci resistência… Sabia que estava ferrado mesmo…

– Eles te machucaram muito?

– Nas “conversinhas” eles bem que tentavam. Mas desde criança eu tenho uma resistência natural a ferimentos. Posso me cortar, levar pancada… Dói na hora e depois passa. Até pra cicatrizar é mais rápido do que normalmente deveria ser.

– E o que você pretende agora?

– Eu sei que vou apodrecer na cadeia, mas ainda posso tentar ficar aqui. Sinceramente não sei onde é pior. Na cadeia corro o risco de morrer por causa dos policiais. Aqui posso acabar ficando louco junto com os outros… Entre a minha sanidade e a minha vida, ainda não sei qual escolher…

– Acho que você é inteligente o bastante para manter-se são.

– Talvez… Mas e você?

juhliana_lopes 23-01-2012

Pré-Morte: A agonia final

parte3Parecia realmente que tudo estava normal. Minha mãe ao meu lado, segurando minhas mãos e falando palavras doces em meu ouvido. Os médicos examinando e com um sorriso calmo como se dissesse: “Está tudo bem.” Tudo ia muito bem…

– Como eu sou bonzinho, eu vou deixar você ver a sua agonia durante há primeira hora. Apenas seu corpo irá sentir e você vai poder assistir a tudo. Depois da primeira hora, você vai voltar pro seu corpo e sentir tudo que merece antes do seu descanso.

– Angel…

Angel estava linda como sempre. Realmente grávida, e ela havia ganhado alguns presentes para o bebê. Entre eles uma toalhinha com meu nome bordado e depois dele um “júnior”.

Como pude ser tão idiota, como pude não ver a verdade. Agora era tarde, ou talvez não.

– Há alguma forma para que eu sobreviva? Eu gostaria muito de voltar e concertar tudo.

– Sempre me pedem isso. Mas nunca aceitam o preço. Para que você viva sua namorada e seu filho têm que ficar no seu lugar e sentir a agonia que você sentiria. Topa?

Aquilo me deixou claramente sem chão. Não havia jeito. Apenas respondi com a cabeça que não. Quando ouvi o choro de minha mãe, notei que a agonia havia começado. A máquina registrava um grande aumento dos batimentos cardíacos, mais rápido que qualquer ser poderia suportar. No mesmo momento os batimentos ficaram fracos, quase parando, e novamente foram as alturas. A expressão de dor em meu rosto era explícita e eu começava a me contorcer. Vi quando Angel e minha mãe saíram do quarto a pedido dos médicos. A porta se abriu, mas ninguém saiu. Pelo vidro, elas não estavam mais no quarto.

Senti todo o peso dos meus atos.  A certeza de que não haveria uma segunda chance, tudo tão claro quanto o dia. O tempo passou tão rápido que só deu tempo de ouvir:

– Adeus Vágner. Seu filho será um grande homem.

Senti minha cabeça pesando. Quando abri os olhos senti toda a dor e agonia de meu corpo, os médicos ao meu redor tentando me ajudar. O ar não chegava aos meus pulmões, e quanto mais eu tentava respirar, mais o ar me faltava. Meu corpo tremia e tinha fortes convulsões, a dor era imensa. Era como se alguém estivesse rasgando cada músculo do meu corpo e quebrando cada osso com um martelo em várias partes. Sentia minha carne se abrindo como se toda a pele fosse se desprender do meu corpo. Meus olhos queriam pular para fora, minha língua parecia um demônio incontrolável. Senti agulhadas em meu corpo, provavelmente sedativos. Sentia o líquido percorrendo minhas veias, mas nada aliviaria aquela tempestade. As convulsões iam ficando mais fortes e agora sentia os médicos me amarrarem para que eu não caísse da cama. Senti minha cabeça inchar. Meu cérebro parecia que ia explodir, meus ouvidos podiam estourar a qualquer momento, e tudo parecia não ter fim. Eu realmente queria morrer para que aquilo se acabasse, mas sabia que ainda tinha muito por vir. Levantei um pouco a cabeça no meio ao tormento e vi a toalha bordada novamente. Pelo menos algo valeria a pena. No fundo eu tinha esperança que meu filho fosse realmente uma boa pessoa, para que não passasse nem metade do que eu estava passando agora. Choques percorriam meu corpo, e sentia meus pulmões atrofiando assim como o coração.

14 horas de agonia, até o momento do suspiro final. Enfim meu corpo estava em paz.

 

/juhliana_lopes 14-01-2013

Pré-Morte: Tentando compreender (parte 2)

parte2“Você está quase morrendo”

Aquelas palavras ecoaram tão profundamente no meu cérebro que era quase como uma tortura. Eu não conseguia acreditar e muito menos entender toda aquela situação.

– Morto?

– Não, não. Morrendo.

– Como posso estar morrendo se estou aqui andando? Até algumas horas eu estava deitado numa cama de hospital vegetando…

– Sim, mas agora você está morrendo e está passando por um processor pré-morte.

Eu ainda não conseguia assimilar aquilo. Como poderia ser.

– Isto é mentira. Como pode ser isso?

– É uma questão de burocracia. Você teve uma vida legal, curtiu bastante, como vocês falam mesmo? De boa… É de boa. Foi a festas, fumou, bebeu, aproveitou tudo que tinha de bom para aproveitar.

– Essa parte é verdade, até acontecer…

– Exatamente. O acidente foi realmente um acidente. Outras pessoas cuidam desse departamento. Eu cuido da parte da justiça e orientar os mortos para o lugar certo.

– Do que você está falando?

– Veja, vamos nos concentrar no seu caso. Um pouco antes do seu acidente, você brigou com sua namorada. Acusou que ela estaria te traindo com seu amigo. Depois foi bater no seu amigo. A verdade é que ela estava conversando com ele sobre como contar a você que estava grávida. Ele estava ajudando para fazer uma surpresa. Antes disso, você já fez muitas pessoas sofrerem. A principal que te trouxe aqui foi uma vez que você chutou a ferida exposta de um mendigo. A dor foi tanta que o pobre coitado morreu ali mesmo. Esses tipos de coisas, associadas a pequenas maldades com animais, fazem você vir para o pré-morte.

– Como você sabe tanto da minha vida? Essas coisas… O mendigo… Eu não tinha contado para ninguém! E como assim Angel esta grávida? Eu… Ela… Por que ela não me contou? Será que era isso que ela queria conversar… Eu estou… Estou…

– Acalme-se. Já disse. A confusão mental é natural nessa hora. A verdade é que sua namorada já lhe perdoou assim como seu amigo. Isso conta pontos, pois apesar de fazê-las sofrerem, elas foram fortes para lhe dar o perdão verdadeiro. Enquanto ao mendigo, ele nem teve tempo de saber o que era o perdão. Os animais, também contam votos, já que são criaturas indefesas. Você vai agonizar por algumas horas. Eu diria umas 12, sentindo uma dor equivalente ao do mendigo e os animais. Até ainda tem esse coelho. É, vão ser umas 14 horas de agonia. Você vai desejar morrer logo nos primeiros minutos, mas vai ter que esperar às 14 horas completas.

– Eu estou ficando louco. Deve ser um sonho, isso não é possível!

– Venha quero lhe mostrar uma coisa.

A figura estranha se levantou e foi me guiando até chegar ao meu quarto. Pelo vidro, eu podia ver um quarto vazio. Ele passou a mão pelo vidro, como se estivesse limpando e então eu pude ver. Minha mãe estava no quarto, os médicos e até Angel. Não sei se durante este tempo ela sempre estivera lá, já que eu nunca conseguia enxergar o lugar onde ela estava. Os médicos estavam fazendo exames e as batidas do meu coração estavam fracas. Ainda sim, tudo parecia bem…

 

/juhliana_lopes 14-01-2013

Pré-morte

parte1Eram 13h quando aconteceu. Eu estava na minha, esperando a minha mãe como sempre, gostava de ouvir a voz dela. Mas ela não apareceu. Comecei a ficar ansioso, por que ela estaria demorando tanto? Foi na minha ansiedade que notei a ausência dos médicos. Eles sempre vêm me ver a cada hora. Mas já faziam três e ninguém apareceu.

Um leve formigamento tomou meu corpo e aos poucos os movimentos do meu corpo foram voltando. Lágrimas de alegria percorreram meu rosto, um verdadeiro milagre estava acontecendo. Sentei-me na cama sozinho. Era divino. Onde estariam todos para ver esta maravilha! Tentei falar, mas as palavras não saiam da minha boca. Apenas gemidos e pouca coisa compreensível. Tudo estava voltando ao normal. Já que ninguém ia aparecer pra me ver, porque não ir atrás deles e fazer uma surpresa? A sala do médico não devia ser tão longe assim.

Primeiro tentei ficar em pé. No começo parecia fácil, mas o peso do tempo parecia ter travado minhas pernas. O primeiro passo foi uma coisa horrorosa. E assim eu fui cada passo mais horroroso que o outro, porém, eu não cai. Fui me apoiando nas coisas até chegar a porta. Quando eu abri, minha surpresa foi maior ainda. Ninguém nos corredores. Eu nunca tinha visto o corredor exatamente, mas tinha certeza que tinha muita gente, o barulho de macas e pessoas andando de um lado para o outro era constante.

Tentei chamar alguém. Andei pelo corredor, olhando os quartos. Todos vazios. O que estava acontecendo afinal. Fui até a janela, o sol brilhava forte e a brisa agitava as folhas das árvores. Olhei com atenção todos os cantos. Não havia ninguém. Nem carros, nem crianças, nem cachorros, nem aves. Nenhum ser. O desespero começou a tomar conta de mim e andei o mais rápido que pude até a recepção. Havia papéis sobre a mesa, café quente na cafeteira e pão para as visitas, mas não havia ninguém.  Sentei nas cadeiras de espera. Apoiei os cotovelos sobre os joelhos e minha cabeça foi de encontro as minhas mãos. Agora o choro era de agonia. A alegria do retorno estava totalmente desfeita com aquela confusão. Onde estaria todo mundo? O que estava acontecendo?

– Acalme-se.  – Uma voz me veio à cabeça, então olhei rapidamente ao redor procurando quem poderia estar falando. Tentei chamar, mas eu ainda não sabia falar.

– Acalme-se – disse a voz novamente. Eu juro que estava tentando, mas a ideia de que ninguém estava falando comigo era assustadora.

– Veja bem, eu também não consigo falar. Apenas em sua mente. Você pode fazer o mesmo, respondendo em pensamentos. Agora se acalme.

Eu estava gelado. Um leve arrepio tomou minha coluna. Quando me dei conta havia alguém sentado ao meu lado. Uma figura peculiar, toda de branco, com uma bengala. Sua pele era branca como a roupa, e os olhos completamente negros. Olhava para mim como se pudesse ver a minha alma.

– Onde está todo mundo? – pensei. Eis que a voz em minha cabeça respondeu:

– No mesmo lugar de sempre.

– Como assim? Já andei esse hospital todo e não achei ninguém.

– Elas estão ai. Você que não consegue ver.

– E por que eu não consigo?

– Por que você está quase morrendo…

 

/juhliana_lopes 14-01-2013

Durma bem

dormirHoje foi mais um dia maravilhoso. Você sabe que eu só venho aqui pra lhe contar sobre meu dia quando ele foi ótimo. Primeiro acho que devo agradecer a você, sabe, você me mostrou este prazer, e é algo com que eu convivo muito bem.

Foi uma moça desta vez. Ela estava saindo da faculdade, três cadernos nas mãos e dois livros. Tinha duas amigas junto com ela. Andaram um quarteirão dando risada e tendo conversas aleatórias. Seu cabelo claro brilhava com a luz da rua, fazendo um reflexo fascinante. Você tinha que ver, lembrou-me tanto dos seus cabelos. Ela pegou um ônibus e eu fui seguindo até que cheguei a sua casa. Não que eu não soubesse onde era já fazia um mês que a estava seguindo. A casa é mais como uma república, não tinha só ela morando, mas ainda sim foi fácil, considerando que a casa não tinha andares. Esperei pacientemente todas as luzes se apagarem. Abri a janela cautelosamente. Eu já havia treinado muito durante esses dias quando a casa estava completamente só, e também em outras madrugadas. Entrei, tomei um copo de água na cozinha para testar a casa, todos estavam realmente dormindo. Subi para os quartos, e entrei no quarto da moça. Ela dorme sozinha porque a colega de quarto está passando um tempo com os pais. Você sabe que eu tenho acesso a esse tipo de informação, você mesmo me ensinou tudo. Agradeço tanto por isso.

A visão era linda. Queria tanto você comigo naquele momento. Ela estava dormindo com uma camisola normal, aparentemente rosa, não dava pra ver direito por causa do escuro. A única luz que tinha era da lua na janela. Agarrada a um travesseiro, ela estava em posição fetal. Puxei uma cadeira delicadamente e sentei ao lado de sua cama. Fiquei ali apenas observando. Seu sono era tranquilo, a respiração era suave. Tinha leves espasmos e reflexos naturais. Suas mãos se fechavam às vezes, e falava coisas sem nexo, um sonho bom provavelmente. Não lembro a que horas eu entrei no quarto, mas tenho certeza que fiquei ali apenas observando por pelo menos três horas. Apenas ali, observando. Ela não costumava se virar, ficava naquela posição e o máximo que fazia era se contrair mais apertando o travesseiro.

Quando deu mais ou menos três horas e meia de observação, ela deu um suspiro profundo e virou de barriga pra cima, deixando o travesseiro de lado. Sua única movimentação diferente. Nesta posição, a conclusão do meu prazer se tornou propícia. Deitei ao seu lado para que ela se acostumasse com a minha presença, depois de pelo menos uma hora ajoelhei na cama ao seu lado, e sussurrei em seu ouvido as mesmas palavras que você me ensinou. “Bons sonhos, eu cuidarei de você.” Coloquei as mãos em seu pescoço, delicadamente e pressionei cada vez mais forte. Logo seu pescoço estava todo tomado e comecei a sentir as primeiras contrações. Um pequeno engasgo me indicou que eu havia acertado. Sua respiração ficou forte como se quisesse puxar todo o ar, mas era inútil. Os espasmos aumentaram e agora suas mãos se contorciam. A pressão ficou constante durante este tempo, mas o dia já ia amanhecer e eu precisava me apressar. Aumentei a força consideravelmente e as mãos delicadas da bela moça encontraram as minhas. Seus olhos abriram. Coloquei toda força numa mão só enquanto a outra tapava sua boca e nariz. Sua expressão de terror era notável e me fez sorrir como há muito tempo eu não fazia. Espasmos violentos me forçaram a subir em cima dela e prendê-la com meu corpo. Quanto mais força ela fazia, mais pressão eu colocava em seu pescoço. A resistência ia aumentando cada vez mais, então coloquei o braço sobre seu pescoço e pressionei a mão mais forte contra sua boca e nariz. Aos poucos os espasmos se misturaram com falência e em alguns minutos seu corpo estava desfalecido em meus braços. Soltei o braço e a mão e observei por um tempo. Seu coração ainda batia e a respiração estava mínima. Com as minhas duas mãos sobre o pescoço, apertei com toda a força que um homem pode ter e chacoalhei algumas vezes para distribuir a força por todo o pescoço. Logo ele estava mole e o coração parecia ter parado. Em todo caso, forcei seu pescoço por mais algumas vezes e amarrei um lençol, preso a prateleira que ela tinha em cima da cama para manter a pressão. Deixei seu corpo levemente pendurado para forçar um enforcamento. Sai do quarto, calmamente, passei pela cozinha e tomei outro copo de água. Quando eu estava guardando a garrafa na geladeira ouvi a porta de um quarto batendo. Peguei a chave da casa que estava na mesa de centro, abri a porta e sai batendo a porta. Ouvi apenas um: “Quem saiu essa hora?”.

Voltei para o meu carro e fui para um bar. Você sabe depois dessas coisas eu preciso molhar a garganta com algo mais agressivo do que água. Quando eu estava vindo pra cá, passei pela frente da república e havia uma ambulância parada na porta, retirando um corpo envolto num saco. Passei na faculdade e vi as amigas da menina, uma delas estava falando no celular, enquanto a outra chorava muito. Vim correndo pra cá para contar o meu sucesso.

Eu sei você deve estar se perguntando: “Por que não violou o corpo?” Veja bem, só fiz isso com você, porque foi você que eu amei de verdade, você que me ensinou tudo que eu sei. Sinto muita falta de quando éramos nós dois que entravamos nas casas para observar as pessoas dormindo e nos relacionávamos ali, observando a paz alheia.

Eu ia te observar direto, você dormia tão lindamente. Pena que agora está dormindo eternamente. Estas flores são para você meu amor. Sei que gosta de rosas e estas são bem vermelhas. Elas me fazem lembrar o sangue que você cuspiu quando quebrei seu pescoço. Você estava tão linda naquele vestido branco.

Hoje eu vou atrás de mais um dorminhoco. Já tenho três casas em vista. Nas três eu já joguei o bilhete no quintal, do jeito que você me falou: “Tenha bons sonhos”. Não sei se alguém leu, mas a maioria não lê, e poucos dos que leem entendem.  Vou passar o próximo mês ocupado observando três pessoas dormindo. Dois homens e uma mulher. Quando eu tiver sucesso com um deles, eu volto aqui com mais flores e te conto tudo.

Eu te amo muito, mas agora eu tenho que ir. Descanse em paz meu amor, durma bem, eu cuidarei de você.

 

(juhliana_lopes 08-01-2013)

Um sonho que eu tive…

Essa noite eu tive um sonho, que eu aproveitei para escrever sobre, antes de perder os detalhes…

ImagemHouve um tempo, onde o planeta Terra vivia em paz, com as pessoas vivendo normalmente como tinha que ser, e os governos cuidavam de seus problemas como tinha que ser. Porém, os seres humanos haviam evoluído e aceitado uma verdade simples: Eles não estavam sozinhos no universo. No começo foi difícil, a verdade era dura e fez com que muitas pessoas ficassem loucas, se suicidassem ou saíssem matando as outras por ai com a desculpa da loucura.

Depois que aceitaram a verdade, alguns se despuseram a conhecer os amigos de universo, e iniciaram uma expedição com cinco astronautas para visitar seu novo vizinho.

O novo planeta, era muito belo, mas muito pequeno. Parecia mais uma lua, porém habitada. O céu no planeta, era sempre rosa, e por causa da luz, trazia um tom púrpura as coisas, como se sempre estivesse anoitecendo, mas nunca ficava escuro, sempre rosa. O chão era coberto por uma densa floresta. Todo o planeta era uma densa floresta, que faria a floresta amazônica e todas as outras grandes florestas do mundo sentirem inveja. Não se sabia ao certo o tom de cor das folhas, mas todas pareciam ser escura por causa da luz púrpura.

rosa2Os habitantes pareciam viver em paz naquele planeta. Caçavam, tinham suas pequenas invenções para facilitar o dia a dia e pareciam não se preocupara com nada. Mesmo a chegada dos astronautas não gerou nenhum alvoroço ou susto. Foram todos recebidos com grande alegria e festa. Descobriu-se que seus cérebros eram mais evoluídos em relação a linguagem. Tinham sua língua própria, mas eram capazes de entender qualquer outro idioma e responder no mesmo. Os astronautas pegaram umas amostras de água, que não se sabia se era rosa ou não devido a cor do planeta, e amostras de frutas.

Ao retornarem ao planeta Terra, observou-se que tudo no novo planeta era rosa mesmo, inclusive a amostra de água e as frutas. Porém, ao retornarem, os astronautas tomaram conhecimento sobre um estudo secreto que foi feito enquanto visitavam seus novos vizinhos. Foi descoberto que os anos contados no novo planeta, que por enquanto tinha o nome carinhoso de planeta Rosa, eram contados de modo diferentes que no planeta Terra. Na Terra, 2012 já havia passado há muito tempo e toda aquela profecia maia e outras profecias que foram colocadas por cima anunciando o fim do mundo viraram piadas. Mas, no planeta Rosa, havia acabado de chegar o ano de 2012, e umas das várias profecias que apareceram sobre o fim, mas que fora fortemente ignorada, (porque citava o céu cor de rosa), se encaixava perfeitamente agora. Mais uma coisa incomodava. O planeta Rosa esteve oculto durante muito tempo e só agora ele podia ser visto e visitados pelo humanos. Isso só aconteceu, porque os dois planetas tem uma íntima ligação, e quando o fim do planeta Rosa chegasse, seria o fim do planeta Terra.

Com tanta informação, era preciso pensar, contar ou não para a humanidade? O fim parecia não tem meio termo ou forma de evitar, mas contar a população poderia trazer o caos e quem sabe um fim da humanidade antes do próprio fim do mundo. Eis que um dos astronautas lembrou da sabedoria do povo cor de rosa, e que talvez eles soubesse como ajudar. Então, em segredo, foi mandada uma nave com um astronauta para convidar um cidadão do novo planeta para conversar.

Ao chegar aqui, se viu maravilhado com as cores, com os prédios e com tudo que havia em nosso planeta. Logo levaram-no para a sala do conselho e explicaram-no toda a situação. Ele disse que realmente era verdade, e eles sabiam disso desde a formação de seu planeta. O tom de tranquilidade em sua voz chegava a irritar as pessoas preocupadas com esse fim do mundo tão “calmo”. Percebendo a preocupação no ar, o habitante rosa, que não era rosa, era cinza, disse que havia uma solução. O fim do mundo em seu planeta seria causado por uma besta que abriria o chão e engoliria alguns habitantes para se alimentar. Se isso acontecesse, ela destruiria o planeta inteiro atrás de mais comida, mas se não encontrasse nada, iria embora para outro planeta mais distante atrás de comida. Apenas o sangue dos habitantes seria capaz de atiçar e saciar a sua fome, visto que o sangue deles são a única coisa que não é rosa além de sua própria pele (o sangue deles também era cinza). Eles tinham um plano e estavam esperando o momento do ataque da besta para colocar o plano em prática. “E a Terra?” Ele explicou que se a besta acabasse com o planeta Rosa, pela proximidade, era pularia automaticamente para a direita e cairia sobre a Terra, se alimentando dos seres humanos,mas se não encontrasse nada, pularia para a esquerda, indo muito além da compreensão atras de comida em outro lugar.

Era apenas uma questão de sorte e esperar para ver como aconteceria. Apesar dos vários apelos contra, a notícia foi levada a público. “Que aconteça o caos, pelo menos se acabar as pessoas terão aproveitado um pouco de suas vidas”. Foram instalados grandes telões nas principais metrópoles e nas pequenas cidades. Todos queriam acompanhar o “fim do mundo”. Pela tela era possível ver as maravilhas do planeta Rosa, e todo seu explendor, e também a movimentação serena dos habitantes, preparando seu plano infalível. De repente, ao longe o céu cor de rosa ganhou um tom vermelho de terror e algo parecia estar arrancando as árvores uma a uma. Curiosamente, a ligação entre os dois planetas e os eventos estavam trazendo uma interferência para o planeta Terra. Estranhamente, os celulares travaram. Não faziam ligações, não tinham sinal e nem reconhecer o carregador de bateria eles queriam. No planeta Rosa, o “mau” se aproximava e os habitantes agora estavam prontos para fazer seja lá o que fosse que eles tinham em mente. De repente, começaram a voar. Estranhamente e sem explicação, começaram a voar. Um paraquedas feito com tecidos velhos e sujos, porém um paraquedas que voava para cima, invés de descer ao sabor do vento. Logo o céu estava tomado de paraquedas voadores, e todos tinham um controle sobre onde queriam ir e onde queria parar. Pararam todos perto das nuvens, apenas observando a besta de aproximar.

Após algumas árvores arrancadas, e o forte cheiro podre que subia as narinas, a fera olhou em volta e viu que não havia nada. Olhou pra cima. O momento de tensão era grande, pessoas na Terra rezavam, gritavam, choravam. Outras entravam em surto e se jogavam, outras também entravam e surto e jogavam outras pessoas, e outras apenas observavam, caladas. Ouviu-se um grande rugido e logo um silêncio atormentador…

E foi ai que me acordaram então, nunca vou saber o final realmente, mas eis o que eu imagino que tenha acontecido:

Todos olhavam para cima nervosos, e então, todos puderam ver a fera (em imagens de alta definição), saindo do solo e flutuando pelo céu púrpura. Mesmo chegando muito perto dos habitantes voadores, ela não ligou e continuou seu caminho. Ao atingir uma altura consideravelmente grande, atingiu uma supervelocidade e sumiu em direção a esquerda.

Os habitantes começaram a descer de volta para a sua terra e na Terra, todos comemoravam. Era como se uma guerra onde eles nem se dignaram a lutar tivesse acabado. Pessoas correndo nuas na rua, pessoas se abraçando, pessoas rezando novamente, pessoas entrando em surto e se jogando em fontes para sentir a água em suas costas, pessoas entrando em surto e jogando pessoas das janelas ou na frente dos carros. As mais diversas reações, mas a certeza de que o fim, demoraria pelo menos mais uns 2012 anos para chegar novamente. E o planeta Rosa? Continuou vivendo em paz, mas teve que se ocultar novamente quando expedições estavam sendo planejadas para extrair e explorar seus recursos naturais e nativos começaram a ficar doentes. Com o planeta Rosa oculto, a Terra continuou levando sua vida normalmente, com um conflito entre países, só as vezes para quebrar a rotina, descobertas da ciência através das amostras de água rosa, e a certeza de que nunca estiveram sozinhos.

/juhliana_lopes 04-01-13