A artesã

marionete

Em uma cidade distante, havia uma pequena vila ligeiramente afastada da cidade, onde havia moradores amistosos e muito pouco para se fazer nos fins de semana.
O turista da vez se chamava Carlo, sem o “s” mesmo, sua mãe quisera assim. Ele era alto e magro, vivia explorando cidades distantes com vilas afastadas, atrás de alguma história interessante para publicar em seu blog de aventuras.
Gostava de conhecer tudo, desde a padaria do “seu Zé” até as lendas mais tenebrosas. Como de costume, se instalou num desses hotéis pequenos que sempre há nessas cidades distantes e procurou logo saber onde poderia encontrar o “ancião” do lugar.
Algumas visitas ao bar do “seu Zé” foram suficientes para descobrir que o ancião na verdade era anciã e para que Carlo notasse que havia uma rua aonde ninguém ia, não importava o horário.

Ao conversar com Dona Amélia (a anciã), Carlo descobriu um pouco sobre a história da rua aonde ninguém ia: “Aquela é uma rua sem saída, e quase todos de lá morreram, sem uma explicação lógica. A única casa onde mora alguém, é a última da rua. Senhorita Artisan, filha dos donos da casa que também morreram. Vive sozinha lá. Ela sai as vezes para comprar mantimentos e coisas para artesanato. No centro da cidade, ela vende suas tranqueiras  porque aqui, ela sabe que ninguém via comprar. Dizem que uma maldição tomou conta daquela rua e qualquer um que se aproximar terá seu destino traçado. Ouça rapaz, muitos turistas curiosos foram para lá e nunca mais voltaram. Não vá lá. Vença sua curiosidade, vá embora daqui enquanto é tempo!”

Carlo foi para o hotel, mas não conseguia tirar as palavras de sua cabeça. Seja lá o que houvesse, ele tinha que descobrir.

Na manhã seguinte, levantou bem cedo e foi a tal rua proibida. Havia muitas casas, que pareciam muito bonitas, apesar do seu péssimo estado de conservação. A última casa parecia bem velha, cheia de plantas, um jardim imenso. Na caixinha de correio do lado de fora, estava escrito em letras brancas: Família Artisan. Com certeza era a casa. Carlo ficou tanto tempo olhando o jardim que não percebeu quando uma sombra se aproximou e tocou seu ombro.

– Senhor! – disse uma voz calma.

– AAAAH! – Carlo deu um grito e olhou rapidamente para trás.

– Calma Senhor. O que faz aqui? – Disse uma moça com um tom de voz suave como uma flor.

– Nossa, eu confesso que não esperava encontrar alguém aqui a essa hora…  – Disse Carlo, ainda ofegante.

– Nem eu esperava encontrar alguém rondando a minha casa a essa hora. Quem é você? – Disse a moça, agora num ligeiramente mais agressivo.

– Ah sim, desculpe. Meu nome é Carlo, eu estava explorando a vila para escrever um artigo no meu blog. Eu já tinha visitado todas as ruas, então resolvi vir nessa.

– Você conversou com a Dona Amélia antes de vir pra cá?

– Ah… Sim, mas…

– Mesmo assim você veio… A curiosidade não te deixou dormir eu imagino…

– É foi, mas o fato de eu ter vindo aqui não tem nada a ver com o que ela disse e…

– Entre. Vamos tomar um café.

Carlo acompanhou a moça. Seu tom de voz era amistoso, porém, ele não conseguia esquecer um detalhe: como ela sabia que ele havia conversado com Dona Amélia? Ela não estava na rua naquela hora…

Ao entrar na casa, sentiu o ar meio pesado, parecia que vivia fechada, mas a decoração também era amistosa. Peças antigas e modernas davam um contraste elegante ao ambiente. Na cozinha, havia muitas peças de artesanato e tapetes feitos a mão. Aos poucos Carlo foi esquecendo as coisas que Dona Amélia disse e se encantando pela misteriosa moradora.

Conversaram durante horas, sobre coisas da cidade, crendices populares, o mundo e viagens. Não havia nada de assustador nela. Além de simpática, não tinha nada de moça do interior. Tudo ia bem até ela tirar uma caixinha da gaveta, entregar a Carlo e perguntar: “Qual você prefere?” Na caixa, havia vários retalhos de tecido e cordões e todas as cores. Ele escolheu um pequeno retalho azul, da cor de sua calça, e alguns cordões amarelos. 

Ela pegou suas escolhas e foi para uma salinha escondida, pedindo que ele esperasse. Tudo parecia normal, até que de repente ele se sentiu sufocado, mas não havia nada em seu pescoço. Seu ar fugia e ele tinha dificuldade para falar e pedir ajuda. De repente se viu no chão, se arrastando para a sala onde ela entrou, porém não era ele. Algo controlava seu corpo e ao mesmo tempo impedia seu ar. Ao entrar na sala, viu várias marionetes. Seu ar voltou. Seu corpo voltou. Levantou-se e percebeu que um dos bonecos se parecia muito com “Seu zé”, outra era a cara de Dona Amélia. Havia três estantes, uma com uma pequena placa escrita: “Vivos”, outra com uma plaquinha maior escrita: “Presas” e outra escrita: “Mortos”. Na estante de mortos, havia um casal de bonecos muito parecidos com os pais da moça, que Carlo havia visto em um retrato. Sua cabeça girava, ele não queria entender o porquê daquilo, pois lhe dava arrepios só de imaginar. Sua maior surpresa foi quando Carlo observou a estante das Presas. Havia água por baixo dela. Ao observar com atenção, notou que os bonecos choravam, escorriam lágrimas sem parar de seus olhinhos. 

Carlo colocou a mão na boca para abafar um grito de pavor. Na mesma hora viu a Senhorita Artisan se aproximar com um boneco nas mãos. 

– Senho.. senhorita.. o que significa isso? – disse Carlo, nervoso. 

– Por favor, me chame pelo nome. Aracne. Isso é minha coleção. 

– Aracne Artisan? Seu nome é tão estranho quanto sua coleção. – disse Carlo enquanto caminhava em direção da porta. – Olha, agradeço pela conversa, pelo café, pela acolhida, mas, eu tenho que ir viu, até outro dia quem sabe… aah… 

– Aonde você vai? Fique aqui. Agora você vai fazer parte da minha coleção! – Disse Aracne, segurando um boneco nas mãos, pendurado por um cordão enrolado no pescoço. 

Carlo, novamente sem ar, observou o boneco e percebeu que jamais sairia dali. Era um boneco seu. Com suas características  e conforme ela mexia no boneco, ele sentia seu corpo obedecendo aos comandos.

– Onde devo te colocar? Na prateleira dos Vivos? Não. Você teria que ficar na cidade e acho pouco provável que você queira ficar. Na das presas? Não… Eles choram demais, só porque tiveram suas almas aprisionadas dentro dos bonecos sem vida e não podem sair. Para eu te colocar na dos Mortos eu teria que… Por que não? Você vai ficar aqui.

Ao colocar o boneco sentando na estante dos Mortos, Carlo automaticamente sentou em uma cadeira e ficou lá imóvel. Por mais que tentasse se mexer, seu corpo não obedecia. Aracne chegou perto e disse em seu ouvido: “Você devia ter vencido sua curiosidade… Mas você foi fraco. E agora eu vou lhe matar… Mas não se preocupe você quase não sentirá dor…” Apesar da voz suave, Carlo derrubava lágrimas de agonia. Calmamente, Aracne começou a enrolar o fio amarelo que Carlo havia escolhido em volta do seu pescoço e num único golpe puxou com toda força. Conforme Carlo agonizava, fazia o cordão vibrar e isso divertia Aracne a ponto de gargalhar. A última vibração sinalizou que o serviço estava feito. 

Com certa dificuldade, Aracne arrastou o corpo com o cordão para atrás de sua casa e enterrou junto com os outros. 

“Acho que é melhor eu fazer uma estante só para os turistas… O que acha Dona Amélia?” 

“Uma ótima ideia!” 

/juhliana_lopes 19-12-12

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2 respostas em “A artesã

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