A menina – Vivendo a insanidade

Nunca vi alguém tão nervosa.
Não havia acontecido nada, apenas dois carros parados no meio do cruzamento. Ela olhou pra mim e disse:

– Fica no carro.

Obedeci. Ela pegou uma bolsa, dessas enormes, coloridas que as mulheres levam pra praia cheia de tranqueiras. Do outro carro, saiu um cara, metido a playboy. Mal os dois se encontraram ele já foi falando:

– Tinha que ser mulher mesmo!

Ela olhou para ele e sorriu. Ele provocou mais uma vez dizendo:

– Se você tivesse batido sua barbeira, queria ver você dar na esquina pra pagar o concerto.

Seu sorriso permanecia, mas ela não dizia uma só palavra, apenas o encarava.
Ele percebendo que não ia ter resultados, resolveu apelar um pouco mais. Acho que ele se arrepende disso até hoje. Com um ar de deboche ele disse:

– Acho difícil você ganhar algum dinheiro dando por ai. Até sua mãe é melhor puta que você!
Seu sorriso se fechou por um momento. Ele começou a rir, e em questão de segundos estava no chão. Porque diabos alguém leva um taco na bolsa? Ele caiu no chão gritando de dor, parecia que seu maxilar havia fraturado ou algo do tipo. Ela voltou para o carro e seguimos viagem, num silêncio absoluto.
Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, ela falou:

– Não gosto que mexam com a minha mãe.

Eu não tinha mais coragem de encarar aqueles olhos e apenas disse olhando para a janela: –  – Pois é.
Me perdi em meus pensamentos. Que mundo insano era aquele? Estava eu revivendo algo do passado? Teria eu, criado um monstro? Era um sonho? Eu bebi demais? Algo me angustiava, uma verdadeira mistura de emoções. Quando voltei ao mundo real onde eu me encontrava, estávamos no estacionamento novamente. O carro parou e ela disse:

– Eles já foram embora.

Dei uma olhada rápida e disse:

– Parece que sim.
Dei um pulo quando ela tocou meu rosto. Eu ainda estava meio longe, não percebi quando ela se aproximou.

– Nossa, ficou uma cicatriz enorme. E já faz tanto tempo…

Com essa simples frase, eu tive todas as minhas dúvidas aniquiladas. Lembrei que eu nunca havia perguntado seu nome. Acho que fiquei tão afobado que devo ter parecido um idiota perguntando. Ela sorriu e respondeu:

– Alice.

– O meu é Jonas. Desculpe, mas você vai me denunciar? Sabe, sobre a morte daqueles caras… Esquece, sou um idiota perguntando isso. É óbvio que você…

– Não.

– Como?

– Não vou te denunciar. Até porque, se eu fosse fazer isso, poderia ter feito há alguns anos atrás.

Como é? Eu estava ficando louco de vez? Eu não queria entender tal afirmação, mas resolvi perguntar. Sempre sorrindo, ela respondeu:

– Eu sempre estive perto de você. Você se mudou para uma casa que ficava em frente da minha. Como você saía raramente, eu nunca tentei uma aproximação. Este taco que eu levo na bolsa, ainda é aquele taco. Eu voltei lá algumas horas depois e levei comigo, escondi durante muito tempo, até que um dia usei contra meu pai numa briga dele com a minha mãe.

– Você o…

– Não. Eu ainda não tinha força pra isso. E minha mãe não permitiu. Porém ajudou muito, pois foi o tempo de alguns vizinhos aparecerem com a gritaria.

– Eu não consigo me lembrar…

– E nem vai, acho que na ocasião você estava na casa de alguns amigos não sei. Você não estava em casa.

– E hoje, aqui. Seguindo?

– Não. Desta vez foi por acaso. Eu não moro mais lá. E acho que nem você. Só te reconheci por causa dos olhos…

Minha cabeça rodava, era muita informação, novamente fui despertado do meu transe.

– Você vai me denunciar, pelo cara do carro? – Ela perguntou de repente.

– Claro que não.

Saímos do carro, e eu aproveitei a deixa para fazer mais uma pergunta.

– Por que você se meteu naquela briga? Eu podia ter te machucado, ou aqueles caras…

– Não sei dizer. Eu apenas vi e não achei certo. Só quando aquele cara chegou perto de mim que eu percebi o perigo, mas você me protegeu. Agora estamos empatados.
Dei um sorriso desajeitado e agradeci a carona. Ficamos um tempo conversando qualquer coisa sobre baladas e lugares cheios. Confesso que não prestei muita atenção na conversa e acho que ela também não. Só lembro alguma coisa sobre ela ter 20 anos e estar no primeiro emprego. Quando a acompanhei até o carro para nos despedir fui surpreendido com um beijo. Senti-me bobo como na adolescência, tão bobo que tive a cara de perguntar quando íamos nos ver de novo. Ela sorriu e disse:

– Nunca mais.
Fiquei um tempo sozinho no estacionamento. “Nunca mais”. Aquela frase martelava minha cabeça. Diversos pensamentos vieram a minha mente, inclusive pensamentos bobos como “eu estava com mau-hálito?” “eu beijo mal?” É claro que não era nada disso. Talvez ela tivesse medo de mim. Lembrei-me do meu celular e de ligar pro Albert. Meu celular estava sem bateria, mas havia um papel no meu bolso, abri e estava escrito: Vou para fora do país amanhã. Me manda um sms, quero saber se você chegou bem. 172151247. 
Quando estava em casa, pensei em ligar, na esperança de ouvir sua voz novamente.
Mandei o sms na esperança de um possível encontro.
Nunca aconteceu. Nunca foi marcado.
Confesso que foi a primeira noite que dormi em paz, desta vez, desejando aqueles olhos negros.

menina3

/juhliana_lopes 03-12-12

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