Monstros de ninar

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As pessoas contam histórias sobre monstros que vivem dentro de armários, debaixo da cama, e a noite, quando suas crianças vão dormir dizem que irão protege-las destes monstros.
As crianças são ensinadas a ter medo destes monstros, horror ao escuro, medo da solidão.
A verdade, é que a noite, quando todos estão dormindo, os monstros saem de seus cantos, e ficam a te observar. Observam a noite toda com seus olhos profundo e tristes. Observam todas as noites, e cantam canções de ninar para que você durma em paz…
“Dorme dorme, pequena criança, dorme que já já o dia vem…
Dorme dorme, pequeno anjo, eu te protegerei dos monstros que dormem lá fora, que se dizem preocupadas com seu futuro…
Dorme dorme, pequeno tesouro, a vida é dura lá fora. Durma, mas ouça a verdade, os verdadeiros monstros estão lá fora e podem ser chamadas de “pessoas”…
Dorme dorme, pequena criança, confie em nós, não tema, durma em paz, ninguém vai lhe fazer mal…”

/juhliana_lopes

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Vivendo uma mentira

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Como você se sentiria se tivesse que esconder a sua própria natureza? Eu lhe digo meu amigo… Não é uma sensação nada agradável… Você fica dias e dias, vagando por ai, tentando parecer normal, mas a verdade é que tudo não passa de um teatro. Acho que se as pessoas pudessem ver ao menos um pouco do meu verdadeiro eu, não se atreveriam a fazer brincadeiras comigo. Acho que nem família eu teria… Tento levar uma vida normal, mas com o stress do dia a dia esta cada vez mais difícil… Cada transtorno, cada irritação, pode causar um estrago inestimável. Só esta semana estive a ponto de surto pelo menos umas três vezes… É claro que… Eu tenho meus métodos de controle, caso contrário, eu seria primeira capa de todos os jornais sensacionalistas. Há somente um lugar, onde me sinto a vontade. Apenas um lugar onde o monstro que vive dentro de mim repousa tranquilo e calmo. No escuro do meu quarto, é onde eu me sinto verdadeiramente seguro. No escuro não há cores, defeitos, beleza, feiura, valores… O escuro serve para explorar. Explorar o ambiente com a dúvida da incerteza, explorar outros sentidos do corpo, como o toque ou a audição… Explorar os seus medos, se perder em sonhos, desejar se adentrar cada vez mas e se perder em meio ao breu, no silêncio… Aguardo o dia em que eu possa ficar para sempre na escuridão, e aguardo também que eu jamais perca o controle nesse mundo “normal” repleto de insanos… /juhliana_lopes 23-12-12

A artesã

marionete

Em uma cidade distante, havia uma pequena vila ligeiramente afastada da cidade, onde havia moradores amistosos e muito pouco para se fazer nos fins de semana.
O turista da vez se chamava Carlo, sem o “s” mesmo, sua mãe quisera assim. Ele era alto e magro, vivia explorando cidades distantes com vilas afastadas, atrás de alguma história interessante para publicar em seu blog de aventuras.
Gostava de conhecer tudo, desde a padaria do “seu Zé” até as lendas mais tenebrosas. Como de costume, se instalou num desses hotéis pequenos que sempre há nessas cidades distantes e procurou logo saber onde poderia encontrar o “ancião” do lugar.
Algumas visitas ao bar do “seu Zé” foram suficientes para descobrir que o ancião na verdade era anciã e para que Carlo notasse que havia uma rua aonde ninguém ia, não importava o horário.

Ao conversar com Dona Amélia (a anciã), Carlo descobriu um pouco sobre a história da rua aonde ninguém ia: “Aquela é uma rua sem saída, e quase todos de lá morreram, sem uma explicação lógica. A única casa onde mora alguém, é a última da rua. Senhorita Artisan, filha dos donos da casa que também morreram. Vive sozinha lá. Ela sai as vezes para comprar mantimentos e coisas para artesanato. No centro da cidade, ela vende suas tranqueiras  porque aqui, ela sabe que ninguém via comprar. Dizem que uma maldição tomou conta daquela rua e qualquer um que se aproximar terá seu destino traçado. Ouça rapaz, muitos turistas curiosos foram para lá e nunca mais voltaram. Não vá lá. Vença sua curiosidade, vá embora daqui enquanto é tempo!”

Carlo foi para o hotel, mas não conseguia tirar as palavras de sua cabeça. Seja lá o que houvesse, ele tinha que descobrir.

Na manhã seguinte, levantou bem cedo e foi a tal rua proibida. Havia muitas casas, que pareciam muito bonitas, apesar do seu péssimo estado de conservação. A última casa parecia bem velha, cheia de plantas, um jardim imenso. Na caixinha de correio do lado de fora, estava escrito em letras brancas: Família Artisan. Com certeza era a casa. Carlo ficou tanto tempo olhando o jardim que não percebeu quando uma sombra se aproximou e tocou seu ombro.

– Senhor! – disse uma voz calma.

– AAAAH! – Carlo deu um grito e olhou rapidamente para trás.

– Calma Senhor. O que faz aqui? – Disse uma moça com um tom de voz suave como uma flor.

– Nossa, eu confesso que não esperava encontrar alguém aqui a essa hora…  – Disse Carlo, ainda ofegante.

– Nem eu esperava encontrar alguém rondando a minha casa a essa hora. Quem é você? – Disse a moça, agora num ligeiramente mais agressivo.

– Ah sim, desculpe. Meu nome é Carlo, eu estava explorando a vila para escrever um artigo no meu blog. Eu já tinha visitado todas as ruas, então resolvi vir nessa.

– Você conversou com a Dona Amélia antes de vir pra cá?

– Ah… Sim, mas…

– Mesmo assim você veio… A curiosidade não te deixou dormir eu imagino…

– É foi, mas o fato de eu ter vindo aqui não tem nada a ver com o que ela disse e…

– Entre. Vamos tomar um café.

Carlo acompanhou a moça. Seu tom de voz era amistoso, porém, ele não conseguia esquecer um detalhe: como ela sabia que ele havia conversado com Dona Amélia? Ela não estava na rua naquela hora…

Ao entrar na casa, sentiu o ar meio pesado, parecia que vivia fechada, mas a decoração também era amistosa. Peças antigas e modernas davam um contraste elegante ao ambiente. Na cozinha, havia muitas peças de artesanato e tapetes feitos a mão. Aos poucos Carlo foi esquecendo as coisas que Dona Amélia disse e se encantando pela misteriosa moradora.

Conversaram durante horas, sobre coisas da cidade, crendices populares, o mundo e viagens. Não havia nada de assustador nela. Além de simpática, não tinha nada de moça do interior. Tudo ia bem até ela tirar uma caixinha da gaveta, entregar a Carlo e perguntar: “Qual você prefere?” Na caixa, havia vários retalhos de tecido e cordões e todas as cores. Ele escolheu um pequeno retalho azul, da cor de sua calça, e alguns cordões amarelos. 

Ela pegou suas escolhas e foi para uma salinha escondida, pedindo que ele esperasse. Tudo parecia normal, até que de repente ele se sentiu sufocado, mas não havia nada em seu pescoço. Seu ar fugia e ele tinha dificuldade para falar e pedir ajuda. De repente se viu no chão, se arrastando para a sala onde ela entrou, porém não era ele. Algo controlava seu corpo e ao mesmo tempo impedia seu ar. Ao entrar na sala, viu várias marionetes. Seu ar voltou. Seu corpo voltou. Levantou-se e percebeu que um dos bonecos se parecia muito com “Seu zé”, outra era a cara de Dona Amélia. Havia três estantes, uma com uma pequena placa escrita: “Vivos”, outra com uma plaquinha maior escrita: “Presas” e outra escrita: “Mortos”. Na estante de mortos, havia um casal de bonecos muito parecidos com os pais da moça, que Carlo havia visto em um retrato. Sua cabeça girava, ele não queria entender o porquê daquilo, pois lhe dava arrepios só de imaginar. Sua maior surpresa foi quando Carlo observou a estante das Presas. Havia água por baixo dela. Ao observar com atenção, notou que os bonecos choravam, escorriam lágrimas sem parar de seus olhinhos. 

Carlo colocou a mão na boca para abafar um grito de pavor. Na mesma hora viu a Senhorita Artisan se aproximar com um boneco nas mãos. 

– Senho.. senhorita.. o que significa isso? – disse Carlo, nervoso. 

– Por favor, me chame pelo nome. Aracne. Isso é minha coleção. 

– Aracne Artisan? Seu nome é tão estranho quanto sua coleção. – disse Carlo enquanto caminhava em direção da porta. – Olha, agradeço pela conversa, pelo café, pela acolhida, mas, eu tenho que ir viu, até outro dia quem sabe… aah… 

– Aonde você vai? Fique aqui. Agora você vai fazer parte da minha coleção! – Disse Aracne, segurando um boneco nas mãos, pendurado por um cordão enrolado no pescoço. 

Carlo, novamente sem ar, observou o boneco e percebeu que jamais sairia dali. Era um boneco seu. Com suas características  e conforme ela mexia no boneco, ele sentia seu corpo obedecendo aos comandos.

– Onde devo te colocar? Na prateleira dos Vivos? Não. Você teria que ficar na cidade e acho pouco provável que você queira ficar. Na das presas? Não… Eles choram demais, só porque tiveram suas almas aprisionadas dentro dos bonecos sem vida e não podem sair. Para eu te colocar na dos Mortos eu teria que… Por que não? Você vai ficar aqui.

Ao colocar o boneco sentando na estante dos Mortos, Carlo automaticamente sentou em uma cadeira e ficou lá imóvel. Por mais que tentasse se mexer, seu corpo não obedecia. Aracne chegou perto e disse em seu ouvido: “Você devia ter vencido sua curiosidade… Mas você foi fraco. E agora eu vou lhe matar… Mas não se preocupe você quase não sentirá dor…” Apesar da voz suave, Carlo derrubava lágrimas de agonia. Calmamente, Aracne começou a enrolar o fio amarelo que Carlo havia escolhido em volta do seu pescoço e num único golpe puxou com toda força. Conforme Carlo agonizava, fazia o cordão vibrar e isso divertia Aracne a ponto de gargalhar. A última vibração sinalizou que o serviço estava feito. 

Com certa dificuldade, Aracne arrastou o corpo com o cordão para atrás de sua casa e enterrou junto com os outros. 

“Acho que é melhor eu fazer uma estante só para os turistas… O que acha Dona Amélia?” 

“Uma ótima ideia!” 

/juhliana_lopes 19-12-12

A menina – Vivendo a insanidade

Nunca vi alguém tão nervosa.
Não havia acontecido nada, apenas dois carros parados no meio do cruzamento. Ela olhou pra mim e disse:

– Fica no carro.

Obedeci. Ela pegou uma bolsa, dessas enormes, coloridas que as mulheres levam pra praia cheia de tranqueiras. Do outro carro, saiu um cara, metido a playboy. Mal os dois se encontraram ele já foi falando:

– Tinha que ser mulher mesmo!

Ela olhou para ele e sorriu. Ele provocou mais uma vez dizendo:

– Se você tivesse batido sua barbeira, queria ver você dar na esquina pra pagar o concerto.

Seu sorriso permanecia, mas ela não dizia uma só palavra, apenas o encarava.
Ele percebendo que não ia ter resultados, resolveu apelar um pouco mais. Acho que ele se arrepende disso até hoje. Com um ar de deboche ele disse:

– Acho difícil você ganhar algum dinheiro dando por ai. Até sua mãe é melhor puta que você!
Seu sorriso se fechou por um momento. Ele começou a rir, e em questão de segundos estava no chão. Porque diabos alguém leva um taco na bolsa? Ele caiu no chão gritando de dor, parecia que seu maxilar havia fraturado ou algo do tipo. Ela voltou para o carro e seguimos viagem, num silêncio absoluto.
Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, ela falou:

– Não gosto que mexam com a minha mãe.

Eu não tinha mais coragem de encarar aqueles olhos e apenas disse olhando para a janela: –  – Pois é.
Me perdi em meus pensamentos. Que mundo insano era aquele? Estava eu revivendo algo do passado? Teria eu, criado um monstro? Era um sonho? Eu bebi demais? Algo me angustiava, uma verdadeira mistura de emoções. Quando voltei ao mundo real onde eu me encontrava, estávamos no estacionamento novamente. O carro parou e ela disse:

– Eles já foram embora.

Dei uma olhada rápida e disse:

– Parece que sim.
Dei um pulo quando ela tocou meu rosto. Eu ainda estava meio longe, não percebi quando ela se aproximou.

– Nossa, ficou uma cicatriz enorme. E já faz tanto tempo…

Com essa simples frase, eu tive todas as minhas dúvidas aniquiladas. Lembrei que eu nunca havia perguntado seu nome. Acho que fiquei tão afobado que devo ter parecido um idiota perguntando. Ela sorriu e respondeu:

– Alice.

– O meu é Jonas. Desculpe, mas você vai me denunciar? Sabe, sobre a morte daqueles caras… Esquece, sou um idiota perguntando isso. É óbvio que você…

– Não.

– Como?

– Não vou te denunciar. Até porque, se eu fosse fazer isso, poderia ter feito há alguns anos atrás.

Como é? Eu estava ficando louco de vez? Eu não queria entender tal afirmação, mas resolvi perguntar. Sempre sorrindo, ela respondeu:

– Eu sempre estive perto de você. Você se mudou para uma casa que ficava em frente da minha. Como você saía raramente, eu nunca tentei uma aproximação. Este taco que eu levo na bolsa, ainda é aquele taco. Eu voltei lá algumas horas depois e levei comigo, escondi durante muito tempo, até que um dia usei contra meu pai numa briga dele com a minha mãe.

– Você o…

– Não. Eu ainda não tinha força pra isso. E minha mãe não permitiu. Porém ajudou muito, pois foi o tempo de alguns vizinhos aparecerem com a gritaria.

– Eu não consigo me lembrar…

– E nem vai, acho que na ocasião você estava na casa de alguns amigos não sei. Você não estava em casa.

– E hoje, aqui. Seguindo?

– Não. Desta vez foi por acaso. Eu não moro mais lá. E acho que nem você. Só te reconheci por causa dos olhos…

Minha cabeça rodava, era muita informação, novamente fui despertado do meu transe.

– Você vai me denunciar, pelo cara do carro? – Ela perguntou de repente.

– Claro que não.

Saímos do carro, e eu aproveitei a deixa para fazer mais uma pergunta.

– Por que você se meteu naquela briga? Eu podia ter te machucado, ou aqueles caras…

– Não sei dizer. Eu apenas vi e não achei certo. Só quando aquele cara chegou perto de mim que eu percebi o perigo, mas você me protegeu. Agora estamos empatados.
Dei um sorriso desajeitado e agradeci a carona. Ficamos um tempo conversando qualquer coisa sobre baladas e lugares cheios. Confesso que não prestei muita atenção na conversa e acho que ela também não. Só lembro alguma coisa sobre ela ter 20 anos e estar no primeiro emprego. Quando a acompanhei até o carro para nos despedir fui surpreendido com um beijo. Senti-me bobo como na adolescência, tão bobo que tive a cara de perguntar quando íamos nos ver de novo. Ela sorriu e disse:

– Nunca mais.
Fiquei um tempo sozinho no estacionamento. “Nunca mais”. Aquela frase martelava minha cabeça. Diversos pensamentos vieram a minha mente, inclusive pensamentos bobos como “eu estava com mau-hálito?” “eu beijo mal?” É claro que não era nada disso. Talvez ela tivesse medo de mim. Lembrei-me do meu celular e de ligar pro Albert. Meu celular estava sem bateria, mas havia um papel no meu bolso, abri e estava escrito: Vou para fora do país amanhã. Me manda um sms, quero saber se você chegou bem. 172151247. 
Quando estava em casa, pensei em ligar, na esperança de ouvir sua voz novamente.
Mandei o sms na esperança de um possível encontro.
Nunca aconteceu. Nunca foi marcado.
Confesso que foi a primeira noite que dormi em paz, desta vez, desejando aqueles olhos negros.

menina3

/juhliana_lopes 03-12-12