A menina – O Lapso e a Certeza

Naquela mesma semana meus pais se mudaram. Nunca contei a eles o que tinha acontecido,  e acredito que tenha sido melhor assim.

Queria esquecer tudo aquilo. As surras na escola, os becos, os caras, os olhos negros… Aqueles olhos me atormentaram durante meses. Acordava várias vezes durante a noite assustado, como se aqueles olhos estivesse ali, velando meu sono. Era só uma criança, porque eu me sentia assim?

Os anos passaram e eu passei da fase “adolescente bobão que tenta chamar atenção das meninas”, para focar mais em trabalho. A verdade é que eu nunca fui muito galã, pois além de desajeitado, as espinhas e a barba atrapalhavam muito.

Outro fato era “aquele acontecido”. Sentia-me mal às vezes, como se alguém fosse perceber que eu tinha matado alguns caras.

Enfim, quando comprei meu carro, trabalhei que nem um cavalo para quitar as dívidas e foi quando conheci o Albert. Fui trabalhar na empresa dele por causa do meu desempenho nos computadores, era um serviço bom, que me dava abertura para uma vida social, apesar de que eu a evitasse bastante.

Só depois de “velho” comecei a sair. Confesso que em grande parte eu era arrastado por Albert. Ele curtia baladas, dizia que estava de olho “nas novinhas”. Sempre achei ridículo esse tipo de atitude. Garanto que se fosse filha dele, ele não permitiria que um cara chegasse perto com as mesmas intenções que ele ia.

Não gosto de lugares cheios, mais uma vez pela minha cisma em relação ao que tinha ocorrido. Eu me sentia torturado nesses lugares, mas era o único jeito de me tirar do trabalho.

Eu estava distraído com uma cerveja na mão, apenas observando a dancinha ridícula que Albert fazia para se “aproximar” das meninas, e em um leve lapso passei os olhos rapidamente por todo ambiente e voltei a minha cerveja, porém algo havia me chamado a atenção. Eu estava ficando louco? Talvez fosse só a minha imaginação, porém arrisquei em olhar novamente, desta vez com mais atenção, observando cada detalhe.

Era uma moça bonita, parecia tão deslocada quanto eu. Arrastada pelas amigas talvez… Isso pouco me importava, pois eu estava ocupado demais olhando para os seus olhos… Acho que fiquei tão surpreso e abalado com a situação, que não percebi que ela havia ficado sozinha do outro lado do bar e também estava me encarando.

Desviei o olhar rapidamente, mas acho que ela percebeu. Terminei minha bebida, falei com Albert rapidamente e sai sem olhar para trás. Eu estava eufórico e ao mesmo tempo incrédulo. “Foi apenas impressão” eu dizia a mim mesmo. Meus pensamentos estavam me levando para tão longe que esbarrei em um armário ambulante, que estava doido por uma briga. Tentei me desculpar, mas logo mais alguns caras chegaram e eu fiquei cercado.

“Agora não…” pensei. Quando eu ia tomar o primeiro soco, sem nenhuma chance de argumentação, veio um carro em alta velocidade que por pouco não atropelou a mim e aos outros caras. A porta abriu e só consegui ouvir um “Entra!”. Não questionei e obedeci. Mal entrei no carro e senti a arrancada, ficando para trás apenas palavrões e armários frustrados por não terem a sua briga.

Quando olhei para o motorista, vi aqueles olhos negros que me atormentaram durante tanto tempo. Agora eu tinha certeza! Confesso que me perdi admirando aqueles olhos, observando a beleza que se encontrava neles, e ao mesmo tempo duvidando se tudo aquilo era realidade.

Só lembro-me de ouvir um “Tá tudo bem com você?” antes do carro frear bruscamente.

 

/juhliana_lopes 21-11-2012

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