Ho Ho Ho – UM Conto de Natal de Sergio Martorelli

O Mais um Psicopata, agora apresenta pra vocês UM conto de Natal escrito por Sergio Martorelli

A estrada era ladeada por árvores de Natal até onde a vista alcançava.
Veja bem: não eram árvores comuns com luzes de Natal. Eram árvores de Natal REAIS – ou quase, duas fileiras de árvores de plástico com suas lâmpadas pisca-pisca e enfeites bregas de vidro.
E também não era uma estrada. Não estávamos num carro, e sim num trenó voador a sei lá quantos metros de altitude. Sim, as árvores flutuavam no espaço e eu me sentia num dos filmes de De Volta Para o Futuro, mas sem a parte divertida.
Eu não queria estar ali. Uma rena entrou no meu quarto, bateu na minha cabeça com um poste de barbeiro (não pergunte!) e acordei olhando para o rêgo do gordão de legging azul e blusa com estampas havaianas que pilotava o trenó.
– Ho, ho, ho! – disse ele, e era a única coisa que ele dizia, mas felizmente eu tinha um tradutor.
– Ele disse “bem vindo à Fábrica de Brinquedos, Bob” – disse Rudolph, a rena que me deixou desacordado e agora estava sentada ao meu lado, fumando um Lucky Strike. E eu nem sabia que renas tinham bunda.
– Ele não devia estar usando a roupa vermelha? – perguntei, para quebrar o silêncio.
– O que, em Novembro? O uniforme é só para o grande dia, e só nas aparições públicas!
– Hm. Certo, e pra onde vocês estão me levando?
– Para a Fábrica de Brinquedos, ora, Bob. Você ganhou a chance de trabalhar lá!
– Ah. Eu não participei de nenhum concurso. E meu nome não é Bob.
– Quem liga, Bob? Veja bem, não é um concurso. Você lembra a última vez que ganhou um presente de Natal?
– Ué. Todo ano! Roupas e…
– Um presente de Natal que GOSTASSE?
Merda. Era verdade.
– Então isso é obra de vocês?
– Não, obra sua. Em seus onze anos você ganhou… vejamos, onze carvõezinhos de presente. Crianças já costumar socializar muito antes disso, mas você bateu um recorde. Até o momento, tudo indica que você está em vias de ser um… como é a palavra, chefe?
– Ho, ho, ho.
– Isso mesmo: sociopata. E sociopatas devem ser removidos da sociedade o quanto antes.
– E por que?
– Questões econômicas. No Polo Norte não tem árvores para queimarmos. Sai mais caro arrumarmos um pedaço de carvão do que um brinquedo para cada criança travessa do mundo. Sinto muito, Bob.
– Meu nome não é Bob! – aquilo já estava enchendo – E você, não devia estar na frente do trenó, puxando o carrinho com os outros?
– Bah. Eu sou o mais famoso das histórias.
– Os outros também são! Blitzen, Donner…
– Pfft. Figurantes. E eles têm nome em português, por que você não os usa?
– Sou colonizado.
– Hm. Bom, o fato de eu ser famoso… e ter as melhores habilidades em sexo oral… me garantem algumas regalias – respondeu Rudolph com a boca mole e um trejeito que eu já tinha visto em vários programas de TV.
– Sexo… oral? O que é isso?
– Eu sabia que você não ia entender – Disse a rena, antes de me desacordar de novo com outra paulada do poste de barbeiro.

Não sei quanto tempo fiquei desacordado, mas quando acordei eu estava num galpão imenso e bem-iluminado, sentado em frente a uma bancada repleta de circuitos, fios e caixas de plástico.
– Pensei que eu fosse montar brinquedos!
– Esses são brinquedos. Tablets, smartphones, videogames.
– E por quanto tempo vou ficar aqui?
– Hm. Difícil calcular. Fazer presentes para todas as crianças do mundo requer uma vida inteira, não é?
– Mas isso é trabalho escravo infantil! Não é proibido?
– Não no Pólo Norte.
– Aqui não parece o Pólo Norte!
– OK, você me pegou, não estamos no Polo Nórte. Aqui é a Tailândia. Mais alguma pergunta?
– Por que todas essas crianças são tão gordas?
– Oh. Um regime de doces faz isso. Todas elas são gordas. E muitas são diabéticas. Inclusive você entrou no lugar do Grande Bob, que perdeu as extremidades dos dedos e ficou cego. Parabéns, Bob!
– E para onde foi esse garoto?
– Precisamos fazer carvões, esqueceu? Ainda há muitos meninos maus no mundo.
– Posso falar com seu chefe?
– Hm. Receio que não. A essa altura ele está relaxando. Sabe como é… fazendo sexo com os figurantes.
Aquilo era demais. Tudo bem que eu fosse obrigado a ficar lá até o resto da vida, mas eu não queria morrer sem saber o que era AQUILO.
– O que é esse… esse tal “sexo” que vocês tanto falam?
– Ah. Bom, Bob, eventualmente você vai descobrir. Acho que o chefe te achou bonitinho.
E então o gordão entrou no galpão, suado e sem camisa, ainda ajeitando sua legging e olhando pra mim como quem olha para um prato de rabanadas. Foi aí que eu entendi tudo.
– Eca! Você quer dizer que o Papai Noel quer me BEIJAR?
– Mais ou menos isso – disse Rudolph.
– Ho, ho, ho, – disse o gordão.
– Você só sabe dizer isso? – perguntei.
– Hodor?
– Isso não tem graça!
– Ho, ho, ho! – ele respondeu, e dessa vez eu entendi: “Pra mim, tem!”

/sergio_martorelli

Aqui o face do autor do texto: Sergio Martorelli

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