A menina

O dia não começou bem… 
Não havia ninguém em casa, e eu tive que sair com fome. 
No ônibus, as pessoas gritavam, fazendo com que eu perdesse a concentração em minha leitura matinal. Normalmente não me importo com barulho, mas como não sou surdo, sou obrigado a ouvir o assunto, e eu odeio novelas… 
Chegando ao meu destino, notei que faltava algo, mas não reclamei, afinal, meu dia já estava sendo ruim, não custava nada ter pelo menos uma coisa boa. 
Até a hora da saída, foi tudo relativamente e estranhamente normal. Normal demais! 
Voltando pra casa, foi quando houve o encerramento daquele dia infernal. 
Meus recepcionistas particulares, resolveram me encontrar num beco, junto com três ajudantes…  Seguraram meus braços, e começaram com a sessão de socos. Meu estômago já latejava pedindo socorro, até que me jogaram no chão e vieram os pontapés. Senti cada parte do meu corpo inchar, e eu já não tinha forças pra resistir. 
Pegaram o taco de beisebol. Quando um dos ajudantes levantou o taco, uma voz infantil gritou: “Para!” 
Com muita dificuldade virei o rosto e vi uma menininha, de vestido rosa, olhos negros e assustados. 
Os caras deram risada da situação, e se aproximaram da criança. Ela não correu, nem disse nada. 
Um cara agachou e perguntou:

– Por que parar?

– Porque vocês tão machucando ele… – Ela respondeu sem receio.

– Aé? Tá bom, a gente para, mas então a gente vai machucar você!
Quando ele levantou a mão pra estapear a menina, criei forças e levantei. Mesmo machucado, consegui tomar o taco das mãos de um dos meus recepcionistas e num movimento rápido acertei sua cabeça, de modo que abriu um corte em sua testa na mesma hora. Eu estava possuído. Foi tudo muito rápido. Quando vi, estávamos à menina, os caras no chão e eu. 
Só então me dei conta, do estrago. O do corte na testa jorrava sangue, outro ficou com parte da cabeça amassada. Houve também narizes e dentes quebrados, e o que mais me atordoou foi que, além de derrubar um com uma tacada na cabeça, dei um golpe no pescoço que o quebrou, deixando totalmente torto. 
A menina olhava em volta e fixou os olhos em mim. Eu estava ofegante, e larguei o taco no chão. Ela, sem nenhum aviso, me abraçou. Abaixei e correspondi o abraço. Senti uma paz que nunca havia sentido… 
Ela olhou pra mim e disse: “Obrigada, tio.” Confesso que quase chorei. Quando ia perguntar o seu nome, ela correu e de longe  acenou um tchau desajeitado, indo embora. 
Notei que estava ficando tarde e tratei de ir logo embora. 
Chegando em casa, estava morto. Além das dores dos golpes, senti dores do esforço que fiz. Senti dores na mente, ao pensar que eu havia matado aqueles caras, não pra me defender, mas sim, defender uma criança. 
Dormi muito aquele dia. Fiquei dias sem sair de casa. 
Por mais que eu pensasse, não conseguia entender… Mal sabia eu que minhas dúvidas só estavam começando…

/juhliana_lopes 12-11-12

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s