O amor de Dona Morte

Dona Morte é uma linda moça, que como toda mulher moderna tem um duro trabalho: levar as almas para o descanso eterno. Todo dia era a mesma coisa; ficava sentadinha em sua sala apenas esperando o chamado para buscar um novo amigo. Como não tinha tempo nem pra comer, nunca saía da boa forma, e seus olhos completamente negros chamavam muito a atenção.
Sem tempo pra si, Dona Morte nunca saiu com os amigos e nunca havia se apaixonado. Porém, um dia, em mais um chamado para buscar um velho moribundo, Dona Morte viu um rapaz tão belo quanto o dia mais lindo e com olhos cor de mel que ficavam em um tom dourado a luz do sol. No mesmo instante, o lugar oco, onde devia estar seu coração se encheu de alegria e Dona Morte sempre dava um jeito de vê-lo.
Mas como em todo amor, havia um problema… Como Dona Morte poderia declarar o seu amor? É claro que ele poderia enxergá-la, se assim ela quisesse, mas e o abraço? E o beijo? Se ela tocasse em um só fio de cabelo do seu amado, ele estaria condenado à terra dos eternos.
Pobre Dona Morte… Mal conseguia se concentrar em seu trabalho. Muitas pessoas não morreram, por mera distração e outras que nem estavam marcadas, foram chamadas.
Porém, Dona Morte fez uma descoberta que mudaria o rumo de tudo. Em uma de suas visitas, ela descobriu que seu amado era poeta e todos os seus poemas e poesias, mostravam de maneira melancólica o lado mais belo da morte. Um apaixonado que já sentia a presença de sua amada, mesmo sem nunca enxergar. Dona Morte tomou coragem, e em uma noite fria e lua linda, resolveu se mostrar. O susto não podia deixar de ser a primeira reação, mas logo o rosto de seu amado correspondia a admiração que ela tinha por ele. O poeta apaixonado tentou tocá-la, abraçá-la, mas ela não permitiu. Sabia que ainda não era a hora e faria de tudo para protegê-lo. Prometeu então, que iriam ficar juntos, quando chegasse a sua hora.
O poeta dos olhos de mel então esperou, pacientemente, mas o tempo que não tem pena dos apaixonados demorava a passar. Numa tentativa de acelerar as coisas e ir logo de encontro a sua amada, parou de comer, não tomava remédios, ficava quase nu no frio e no vento e tecia mil poemas para sua musa.
Eis que chegou o grande dia e agonizando em uma cama, cuspindo sangue, escrevia seu último poema, até que a caneta escorregou de sua mão e sentiu um toque leve e frio em sua testa. Ao levantar a cabeça, viu sua amada, linda com os olhos negros, pedindo sua mão, para ajudá-lo a levantar. Ele agora estava leve e pode abraçar sua dama e com um beijo frio, porém intenso selaram a sua paixão.
Sua alma não foi para o descanso, ficou ao lado de seu amor, tecendo versos e ajudando as outras almas perdidas, a encontrarem uma direção. O seu último poema, manchado com sangue, dizia assim:
Eu sinto cada parte do meu corpo,
Em desespero pedir socorro.
Consigo sentir meu pulmão sangrando,
Sinto meu coração parando,
Sinto meus olhos fechando.

De tudo me chamaram
Desde que acreditei em sua promessa
Louco e inconsequente…
Posso ter sido tudo isso,
Mas se fiz foi por um amor doente.

Minha dama, musa da minha inspiração,
É tão bela quanto à lua,
E seus olhos negros me lembram a noite mais escura,
Seu sorriso frio, trás paz ao meu coração.

Sinto você cada vez mais presente,
Agora vamos viver o amor que merecemos,
Amor este que para se viver
Por ironia do destino, é preciso morrer…

Agora posso dizer…
(…)

04-10-2012 /juhliana_lopes

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3 respostas em “O amor de Dona Morte

  1. Poxa, eu realmente ADOREI essa história. Nunca tinha pensado porque temos aquela imagem na nossa cabeça de Dona Morte (“Como não tinha tempo nem pra comer, nunca saía da boa forma”) hahahahahaha. (: um beijo

  2. Pingback: O amor de Dona Morte | Vários Diários

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