Quem seria o louco?

Assim que chegou o tumulto se formou. Era capaz de ouvir seus gritos do outro lado do corredor. Eu tentava chegar mais perto mas, ninguém me permitia; “É perigoso”; não importava eu tinha que chegar. Aproveitei uma brecha e então eu pude ver o horror. Seus gritos eram tão fortes que até os seguranças saiam de perto.
04Apesar de todas as amarras, era como se tudo fosse explodir a qualquer momento, libertando a fera. Era o verdadeiro retrato da agonia, com algumas gotas sarcasmo.
Quando conseguiu se levantar, todos correram… Tolos, por que correm? Não percebem que ficar em pé, encostado na parede é o máximo que ele pode fazer? Como alguém corre com os pés amarrados?

Novamente ele caiu, porém não houve mais gritos, parecia que havia “caído errado” e estava de mal jeito. Precisava respirar mas, ninguém era capaz de ajudá-lo ou ninguém queria mesmo.
Lembro de alguém puxando meu braço para não me deixar entrar no quarto, que havia se transformado em um picadeiro do circo dos horrores.
Tranquei a porta e fechei as cortinas, se ninguém ia ajudar, não tinha por que assistir. Cheguei perto e confesso que estava com um pouco de receio, mas era preciso ajudar, então o ajudei a se sentar e pude ver seu olhos.
Ali estava toda a verdade, uma mistura de medo de criança com raiva do mundo e um pedido de socorro. Comecei a desamarrá-lo e, apesar de não falar nada, seu olhar mostrava claramente que estava confuso afinal, todo sabiam o que ele havia acabado de fazer…
Uma vez solto, sua reação foi a inércia. Não quis levantar, não quis gritar, apenas ficou ali, sentado, olhando fixamente para o chão. Peguei um copo de água, sentei-me ao seu lado e ofereci. Ele não me olhou mas pegou o copo, tomando tudo num só gole. Perguntei se queria mais e ele sinalizando com a cabeça, disse que sim. Foram cinco copos de água.
Levantei e falei pra ele que podia dormir quando quisesse e que o interruptor estava perto da cama para que não precisasse levantar para apagar a luz. Foi então, que ouvi a sua voz pela primeira vez no momento que ele disse um tímido “Obrigado”.
Antes que eu chegasse a porta, ele tocou em meu braço, como alguém podia se levantar tão rápido?
Olhou em meus olhos, tão profundo como se buscasse a minha alma. Pude ouvir sua voz claramente ao dizer: “não deixa eles entrarem aqui de novo, por favor?” Sua mão estava fria, percebi sua fragilidade como se fosse uma criança que não quer ir ao médico, com medo de uma injeção.
Eu prometi que ninguém lhe faria mal e que amanhã voltaria para conversarmos. Eu abri a porta e sai, e antes de fechá-la novamente vi que ele se dirigia lentamente para a cama.

Não sei ele, mas naquela noite, a insônia veio me visitar…

24-09-2012 /juhliana_lopes

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