Apenas Proteção

02

Os olhares da minha família ainda me perturbam. Quando eles vão entender que o que fiz foi para protegê-los e me tirar daqui? Já fazem dois anos, e dá pra contar nos dedos as visitas que recebi. Essa noite sonhei com aquilo tudo de novo, exatos dois anos de noites mal dormidas.
Eu lembro, eu tinha ido a uma festa, nem tinha bebido, eu era o motorista da vez.
Depois de deixar os meus bêbados preferidos em casa, voltei pra minha só desejando chegar logo para dormir. Mal sabia eu que nunca mais dormiria bem de novo.
Logo que encostei percebi algo diferente, havia algo errado. Não sei bem porque, talvez um instinto bobo, tirei os sapatos e entrei, fazendo o mínimo de barulho possível. Estava tudo quieto, mas não o bastante. Ouvi vozes na cozinha, uma voz estranha em particular. Fui na ponta dos pés e a cena que vi me deixou aterrorizado. Um homem, devia ter uns trinta anos, com uma faca na mão, ameaçando meus pais. Eles estavam assustados no canto da parede, abraçados, chorando. Meu pai tentava dizer alguma coia, mas seu choro e soluços repentinos não permitiam. Minha mãe estava com as roupas rasgadas, o que indicava que já havia acontecido alguma coisa.
Não sei o que me passou na cabeça aquela hora, mas uma coisa era certa eu tinha que protegê-los. Olhei rápido ao meu redor mas, não havia nada que eu pudesse usar. Fui chegando mais perto e meu pai me viu. Fiz um sinal rápido para que ele ficasse calado. Por sorte o bandido não viu, talvez porque ele estava ocupado demais obrigando a minha irmã a se despir. Pude ver seu olhos, nunca vi tanto sofrimento como aquela noite. Eu não podia permitir que ela sofresse mais, e foi o que eu fiz.
Quando dei por mim, a faca estava no chão e o pescoço do invasor em meus braços. Uma chave era o bastante para mantê-lo longe de minha irmãzinha. Nessa hora meu pai criou coragem e chutou a faca para longe. Minha mãe abraçou minha irmã e agora só restara eu, abraçado ao pescoço daquele cara, que agora já estava frágil. Meu pai gritou para que eu o largasse mas, minha fúria era tão grande que eu não queria ouvir. Ele se debatia e tentava pedir para que soltasse.
Depois de alguns minutos eternos, eu soltei. Ele caiu no chão, com o nariz sangrando sem o menos sinal de pulso. Minha mãe me olhava como se eu fosse o demônio. Meu pai já havia ligado para polícia e agora uma viatura estava encostando na frente de casa. Meus braços pareciam chumbo e a culpa se misturava com um sentimento de dever cumprido. Por mais que as minhas intenções fossem nobres, não foi o bastante para me livrar da cadeia.
Se existe o inferno, de certo aquele lugar é pior. Dois meses pareceram décadas mas, logo veio um habeas corpus. Em casa novamente, o clima ainda parecia pesado. Nenhum dos meus amigos lembrou que eu existia. Nem minha mãe conseguia me encarar. Aquilo foi me deixando atordoado de tal modo, que até um drogado em sua maior crise ia parecer mais normal que eu.
Um dia, uma pequena discussão surgiu, quando alguém pichou o muro, com os dizeres: “psicopata maldito”. Eu não tinha culpa se as pessoas não conseguiam entender o que havia acontecido… Se ninguém queria entender.
Meu pai tentou vir com um sermão, daqueles que eu ouvia quando era adolescente… (Sinto tanta falta daquele sermão). Tudo ia bem, até ele falar que preferia ter visto minha irmã ser molestada do que ter um filho assassino. O sangue me subiu tão rápido quanto o murro que eu dei na parede que fez um estrondo que pareceu ecoar pela casa inteira. Olhos assustados ao meu redor. Era hora de me trancar no quarto novamente.

Lembro de que naquela noite, ter tido um sonho engraçado no qual, pessoas de branco tentavam me levar pra algum lugar e eu lutava contra elas. Quando acordei me dei conta que era realidade. Hospício? Como um hospício podia me deixar melhor? Eu não estava amarrado, mas era como se fosse… Os tranquilizantes que me deram ainda me pesavam o corpo, tudo ao meu redor era confuso.

Desde então estou aqui. É como se eu estivesse num maldito limbo. O tempo parece não passar, só percebo isso pelo tamanho da minha barba. O único sinal que eu tenho, que estou na realidade, são dois dados viciados que ganhei de um senhor antes dele ir embora. Mas as vezes não sei se são um sinal de realidade ou mais uma peça da minha loucura.

17-09-2012 /juhliana_lopes

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