Branco – A cor infernal

De todos os lugares do mundo, nada é mais torturante do que um quarto branco, sem janelas, completamente vazio. Apenas você e o quarto. Sua mente não para de trabalhar; ideias mirabolantes, a cura de doenças, tudo ao mesmo tempo porém, nada parece capaz de preencher aquele “branco infernal”.

Você pode imaginar cores, sabores, pessoas… Pode criar um mundo novo mas sempre estará preso no branco. Ninguém te ouve, apenas o vazio que grita em seu ouvido todas as noites e não te deixa dormir. Pior que o limbo, o tempo parece não passar no quarto branco.

Como alguém pode achar que este quarto branco é um lugar para recuperação? Minha mente se volta contra mim como se quisesse também, preencher seu próprio vazio. Tudo que criei, todas as pessoas, todos os personagens, todos me perseguem. Querem espaço, querem liberdade. O quarto branco não permite.

Pior que um labirinto, o quarto branco não dá chances de fuga ou qualquer esperança. Você é o único centro. A dor resolve fazer uma visita, acompanhada da agonia e do medo; logo chegam à raiva e o impulso. Uma reunião adorável, onde o objetivo é acabar com você. O quarto branco sufoca tudo que esta em seu interior.

E pensar que é apenas meu primeiro dia nesse lugar infernal.

 

25-09-2012 /juhliana_lopes

Quem seria o louco?

Assim que chegou o tumulto se formou. Era capaz de ouvir seus gritos do outro lado do corredor. Eu tentava chegar mais perto mas, ninguém me permitia; “É perigoso”; não importava eu tinha que chegar. Aproveitei uma brecha e então eu pude ver o horror. Seus gritos eram tão fortes que até os seguranças saiam de perto.
04Apesar de todas as amarras, era como se tudo fosse explodir a qualquer momento, libertando a fera. Era o verdadeiro retrato da agonia, com algumas gotas sarcasmo.
Quando conseguiu se levantar, todos correram… Tolos, por que correm? Não percebem que ficar em pé, encostado na parede é o máximo que ele pode fazer? Como alguém corre com os pés amarrados?

Novamente ele caiu, porém não houve mais gritos, parecia que havia “caído errado” e estava de mal jeito. Precisava respirar mas, ninguém era capaz de ajudá-lo ou ninguém queria mesmo.
Lembro de alguém puxando meu braço para não me deixar entrar no quarto, que havia se transformado em um picadeiro do circo dos horrores.
Tranquei a porta e fechei as cortinas, se ninguém ia ajudar, não tinha por que assistir. Cheguei perto e confesso que estava com um pouco de receio, mas era preciso ajudar, então o ajudei a se sentar e pude ver seu olhos.
Ali estava toda a verdade, uma mistura de medo de criança com raiva do mundo e um pedido de socorro. Comecei a desamarrá-lo e, apesar de não falar nada, seu olhar mostrava claramente que estava confuso afinal, todo sabiam o que ele havia acabado de fazer…
Uma vez solto, sua reação foi a inércia. Não quis levantar, não quis gritar, apenas ficou ali, sentado, olhando fixamente para o chão. Peguei um copo de água, sentei-me ao seu lado e ofereci. Ele não me olhou mas pegou o copo, tomando tudo num só gole. Perguntei se queria mais e ele sinalizando com a cabeça, disse que sim. Foram cinco copos de água.
Levantei e falei pra ele que podia dormir quando quisesse e que o interruptor estava perto da cama para que não precisasse levantar para apagar a luz. Foi então, que ouvi a sua voz pela primeira vez no momento que ele disse um tímido “Obrigado”.
Antes que eu chegasse a porta, ele tocou em meu braço, como alguém podia se levantar tão rápido?
Olhou em meus olhos, tão profundo como se buscasse a minha alma. Pude ouvir sua voz claramente ao dizer: “não deixa eles entrarem aqui de novo, por favor?” Sua mão estava fria, percebi sua fragilidade como se fosse uma criança que não quer ir ao médico, com medo de uma injeção.
Eu prometi que ninguém lhe faria mal e que amanhã voltaria para conversarmos. Eu abri a porta e sai, e antes de fechá-la novamente vi que ele se dirigia lentamente para a cama.

Não sei ele, mas naquela noite, a insônia veio me visitar…

24-09-2012 /juhliana_lopes

Carta de Despedida

Querido Amigo…

03Eu sei, a pergunta principal é: Por quê? Deixe-me explicar. No começo, a única coisa que eu queria era cumprir com meus objetivos pessoais. Faz parte da minha natureza, é o que me completa. Você não seria o primeiro, muito menos o último.
Veja bem, é para te proteger afinal, nasceu essa amizade e eu não tenho muitos amigos.
Tudo foi friamente calculado, desde a primeira abordagem, até aquele dia na cachoeira. Dali pra frente eu parei de calcular pois, eu iria precisar da sua amizade. No fim das contas, eu realmente precisei afinal, quem mais iria servir de testemunha naquele mal entendido…
Você quer a verdade? Então lá vai: o plano sempre foi te seduzir e te matar, ou você acha mesmo que aquele dia no penhasco era brincadeira?
Eu já te observava há dois meses, até acontecer a primeira aproximação. O velho truque de esbarrar na pessoa, derrubando o que ela tem nas mãos, dando início a um diálogo qualquer… Mais usado do que se imagina.
Pois bem, você conquistou minha confiança e me fez ver algo bom em você; como aquele beijo que você poderia ter roubado, quando eu estava bêbada.
Você nunca mais vai me ver e não adianta procurar na internet. Mudo de nomes constantemente (ou você caiu mesmo naquela história de irmã gêmea?) Mais uma vez eu digo, estou protegendo sua vida, por isso estou indo embora. Eu menti pra você; até aquele dia da cachoeira. Acredite você é importante pra mim, só que mais uma semana ao seu lado me faria desejar mais e mais ter o seu sangue escorrendo em minhas mãos.
Isso é um adeus, espero que um dia possa entender meus motivos. Se bem que se você não entender, não irá fazer muita diferença.

Ah, só um conselho, tranque a janela quando for dormir, não sou só eu que estava te observando noite passada.

um abraço de sua amiga.

18-09-2012 /juhliana_lopes

Apenas Proteção

02

Os olhares da minha família ainda me perturbam. Quando eles vão entender que o que fiz foi para protegê-los e me tirar daqui? Já fazem dois anos, e dá pra contar nos dedos as visitas que recebi. Essa noite sonhei com aquilo tudo de novo, exatos dois anos de noites mal dormidas.
Eu lembro, eu tinha ido a uma festa, nem tinha bebido, eu era o motorista da vez.
Depois de deixar os meus bêbados preferidos em casa, voltei pra minha só desejando chegar logo para dormir. Mal sabia eu que nunca mais dormiria bem de novo.
Logo que encostei percebi algo diferente, havia algo errado. Não sei bem porque, talvez um instinto bobo, tirei os sapatos e entrei, fazendo o mínimo de barulho possível. Estava tudo quieto, mas não o bastante. Ouvi vozes na cozinha, uma voz estranha em particular. Fui na ponta dos pés e a cena que vi me deixou aterrorizado. Um homem, devia ter uns trinta anos, com uma faca na mão, ameaçando meus pais. Eles estavam assustados no canto da parede, abraçados, chorando. Meu pai tentava dizer alguma coia, mas seu choro e soluços repentinos não permitiam. Minha mãe estava com as roupas rasgadas, o que indicava que já havia acontecido alguma coisa.
Não sei o que me passou na cabeça aquela hora, mas uma coisa era certa eu tinha que protegê-los. Olhei rápido ao meu redor mas, não havia nada que eu pudesse usar. Fui chegando mais perto e meu pai me viu. Fiz um sinal rápido para que ele ficasse calado. Por sorte o bandido não viu, talvez porque ele estava ocupado demais obrigando a minha irmã a se despir. Pude ver seu olhos, nunca vi tanto sofrimento como aquela noite. Eu não podia permitir que ela sofresse mais, e foi o que eu fiz.
Quando dei por mim, a faca estava no chão e o pescoço do invasor em meus braços. Uma chave era o bastante para mantê-lo longe de minha irmãzinha. Nessa hora meu pai criou coragem e chutou a faca para longe. Minha mãe abraçou minha irmã e agora só restara eu, abraçado ao pescoço daquele cara, que agora já estava frágil. Meu pai gritou para que eu o largasse mas, minha fúria era tão grande que eu não queria ouvir. Ele se debatia e tentava pedir para que soltasse.
Depois de alguns minutos eternos, eu soltei. Ele caiu no chão, com o nariz sangrando sem o menos sinal de pulso. Minha mãe me olhava como se eu fosse o demônio. Meu pai já havia ligado para polícia e agora uma viatura estava encostando na frente de casa. Meus braços pareciam chumbo e a culpa se misturava com um sentimento de dever cumprido. Por mais que as minhas intenções fossem nobres, não foi o bastante para me livrar da cadeia.
Se existe o inferno, de certo aquele lugar é pior. Dois meses pareceram décadas mas, logo veio um habeas corpus. Em casa novamente, o clima ainda parecia pesado. Nenhum dos meus amigos lembrou que eu existia. Nem minha mãe conseguia me encarar. Aquilo foi me deixando atordoado de tal modo, que até um drogado em sua maior crise ia parecer mais normal que eu.
Um dia, uma pequena discussão surgiu, quando alguém pichou o muro, com os dizeres: “psicopata maldito”. Eu não tinha culpa se as pessoas não conseguiam entender o que havia acontecido… Se ninguém queria entender.
Meu pai tentou vir com um sermão, daqueles que eu ouvia quando era adolescente… (Sinto tanta falta daquele sermão). Tudo ia bem, até ele falar que preferia ter visto minha irmã ser molestada do que ter um filho assassino. O sangue me subiu tão rápido quanto o murro que eu dei na parede que fez um estrondo que pareceu ecoar pela casa inteira. Olhos assustados ao meu redor. Era hora de me trancar no quarto novamente.

Lembro de que naquela noite, ter tido um sonho engraçado no qual, pessoas de branco tentavam me levar pra algum lugar e eu lutava contra elas. Quando acordei me dei conta que era realidade. Hospício? Como um hospício podia me deixar melhor? Eu não estava amarrado, mas era como se fosse… Os tranquilizantes que me deram ainda me pesavam o corpo, tudo ao meu redor era confuso.

Desde então estou aqui. É como se eu estivesse num maldito limbo. O tempo parece não passar, só percebo isso pelo tamanho da minha barba. O único sinal que eu tenho, que estou na realidade, são dois dados viciados que ganhei de um senhor antes dele ir embora. Mas as vezes não sei se são um sinal de realidade ou mais uma peça da minha loucura.

17-09-2012 /juhliana_lopes

Mais uma página do diário

01

Confesso agora uma nova sensação.

É certo que jamais imaginei que faria tal ato mas, a verdade, é que nada foi tão realizador como o que eu acabei de fazer.

Impulsionado pela raiva, minhas mãos foram de encontro ao seu pescoço, apertando como se não houvesse fim. Senti sua respiração ofegante e o pulsar de suas veias. Mantive a pressão, como se o tempo tivesse parado. Seus movimentos de resistência aos poucos foram ficando fracos, já não havia respiração e sua pulsação estava fraca.

Minhas mãos soltaram e então, pude ver as marcas. Seu corpo foi de encontro ao chão, mas ainda não estava morto.

Minha visão estava turva, meu coração acelerado e aos poucos meu corpo era entorpecido por uma sensação de prazer e medo mas, ainda não era o bastante.

Peguei então a faca que estava em sua mão. Foram apenas alguns segundos que pareceram horas. Aos poucos o seu sangue se espalhava, pitando o chão de vermelho. A cada corte, era um êxtase. Depois de toda euforia do momento, me dei conta de tudo a minha volta.

Novamente meu coração estava disparado, mas agora era apenas medo.

Peguei a faca novamente e corri como nunca imaginei. Havia um lago perto e agora a faca está lá no fundo.

Fui em direção ao ponto de ônibus como se nada tivesse acontecido mas, apesar de meus esforços, eu ainda estava muito atordoado. As pessoas me olhavam torto, de certo pensando: “É mais um drogado”. Era melhor que acreditassem nisso.

Ao chegar em casa, subi direto para o meu quarto. Minhas pernas tremiam, minha mente estava a mil. De certo que eu não dormiria por meios normais, como toda noite. Era preciso dormir, para poder voltar a pensar novamente. Então comecei o meu ritual para dormir: Algumas doses de bebidas (várias, todas misturadas) e depois de exatos 30 minutos, tranquilizantes e remédios anestésicos.

Minha mente aos poucos foi se desligando e agora eu não sentia mais as pernas. Acho que posso dizer: “Bons sonhos para mim”.

 

 

17-09-2012 /juhliana_lopes